O desastre que atingiu o Nepal há um mês, com um deslizamento de gelo e rocha próximo ao Langtang Lirung, pode parecer distante para quem vive no Brasil. Contudo, a magnitude da destruição, que deixou centenas de mortos e milhares de desaparecidos, carrega lições cruciais para a América do Sul.

Essa tragédia nos força a olhar para mais perto, para a imponente Cordilheira dos Andes, que enfrenta uma transformação acelerada impulsionada pelas mudanças climáticas. Os eventos extremos nas montanhas não são isolados e representam um risco crescente para milhões de pessoas.

Fatores geológicos, sísmicos, hidrológicos e climáticos se combinam para criar cenários perigosos. O aquecimento global está alterando drasticamente as regiões de alta montanha, modificando geleiras, permafrost, encostas, rios e lagos, conforme alertam especialistas e dados de monitoramento.

O Alarme dos Andes: Perda Acelerada de Geleiras

A transformação nas montanhas andinas é inegável e preocupante. Imagens de satélite e mapas do MapBiomas revelam a dimensão da perda glacial na região. Em apenas quatro décadas, entre 1985 e 2024, a superfície de geleiras diminuiu 60% na Bolívia, 48% no Equador e 63% na Colômbia.

A Venezuela, inclusive, já se tornou o primeiro país andino a perder todas as suas geleiras permanentes, um marco sombrio. No Chile, que concentra a maior parte da área glaciar dos Andes, a perda foi ainda mais expressiva, com mais de 344 mil hectares entre 1998 e 2025.

O Peru, por sua vez, registrou uma redução de 54% de sua superfície de geleiras entre 1985 e 2025, o que representa mais de 111 mil hectares. Essa retração glacial não é apenas uma perda de gelo, mas uma reconfiguração completa da paisagem montanhosa, elevando os riscos para o Brasil e a região.

Formação de Novas Lagunas e o Risco de Aluviões

À medida que as geleiras recuam, novos corpos d’água se formam em áreas antes cobertas por gelo. No Peru, a área de lagunas de origem glaciar aumentou 52% entre 2000 e 2025, passando de 2,4 mil para 3,7 mil hectares. Este fenômeno, embora natural, eleva os riscos de desastres.

O aquecimento global também descongela o permafrost, o solo permanentemente congelado, tornando as encostas mais instáveis. Isso as deixa suscetíveis a desprendimentos capazes de gerar fluxos de água, sedimentos e detritos que podem percorrer grandes distâncias, devastando vales e comunidades.

Esses fluxos, conhecidos como aluviões, são uma ameaça real e já causaram catástrofes históricas. O desprendimento de material pode atingir as lagunas glaciais, provocando ondas gigantes e inundações repentinas com poder destrutivo imenso nos Andes.

Lições Amargas do Passado Peruano

O Peru tem um histórico marcante de aluviões que serve de alerta. A região de Áncash, que concentra a maior superfície de lagunas glaciais no país, já vivenciou tragédias. Em 1941, um desprendimento de gelo atingiu a laguna Palcacocha, gerando um fluxo que destruiu parte de Huaraz, matando cerca de 1.800 pessoas.

Mais tarde, em 1970, um terremoto desencadeou um desprendimento de gelo e rocha do Huascarán, que em poucos minutos sepultou Yungay. Cerca de 20 mil pessoas morreram, e apenas 300 sobreviveram, evidenciando a capacidade de tais eventos de aniquilar cidades inteiras.

Recentemente, em 2025, um deslizamento no nevado Vallunaraju provocou inundação e fluxo de detritos, matando duas pessoas e atingindo dezenas de casas. Esses eventos sublinham a dimensão humana desses desastres: uma transformação na montanha pode, em instantes, impactar dramaticamente a vida de milhares.

A Conexão Vital com o Brasil e a Amazônia

As geleiras andinas são cruciais para a segurança hídrica de milhões de sul-americanos. Cidades, agricultura, geração de energia e ecossistemas dependem intrinsecamente dos sistemas hídricos que nascem nessas montanhas. Mas a importância se estende além dos países andinos.

Para o Brasil, essas geleiras também importam significativamente. Parte delas está nas cabeceiras de rios que alimentam a vasta bacia amazônica. Pesquisas brasileiras têm demonstrado uma conexão fundamental entre o ciclo hidrológico amazônico e as geleiras andinas.

Nos países andinos amazônicos, mais da metade da superfície glaciar já foi perdida em apenas quatro décadas. Ainda é preciso aprofundar o entendimento de como essa redução poderá alterar a dinâmica das águas entre os Andes e a Amazônia, com potenciais impactos no clima e nos ecossistemas brasileiros.

O monitoramento por satélites é uma ferramenta vital, permitindo acompanhar essas transformações, identificar onde as geleiras diminuem e onde a água aumenta. Esses dados são essenciais para prevenir desastres, salvar vidas e orientar o planejamento hídrico em toda a região. O Nepal e o Peru nos lembram que processos naturais de grande magnitude continuarão a ocorrer nas altas montanhas, e compreender suas conexões com nossos sistemas hídricos e populações é cada vez mais urgente para o Brasil e seus vizinhos.


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