A possível aquisição da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Vasco da Gama pela Almirante Participações tem despertado grande interesse e curiosidade no cenário do futebol brasileiro. Por trás da empresa que se tornou a principal candidata para assumir o controle do clube carioca, existe uma complexa teia de relações familiares e empresariais.

Essa trama remonta à fundação da companhia, com a participação indireta da presidente do Palmeiras, Leila Pereira, e de seu marido, José Roberto Lamacchia. A evolução da empresa, que passou por diversas mudanças societárias, culminou com o controle de Marcos Lamacchia, filho de José Roberto, consolidando um movimento de “pai para filho” na gestão.

Todo esse percurso, revelado por documentos societários, culmina no leilão judicial desta sexta-feira, onde a Almirante se apresenta como “stalking horse”, com uma proposta de referência já estabelecida, conforme informações divulgadas pelo UOL.

A Origem da Almirante e a Conexão com Leila Pereira

A história da empresa que hoje conhecemos como Almirante Participações começou em março de 2024, sob o nome de Top Gol. Sua criação contou com a participação de outras duas empresas, a Ravena Participações e a Siena Participações, que, por sua vez, tinham como acionista majoritária a Crefipar Participações, detentora de 99% do capital.

É nesse ponto que o nome de Leila Pereira surge, com uma ligação indireta. A Crefipar é uma holding que concentra os investimentos da família Lamacchia, e Leila possuía, na época, 2% das ações, enquanto o restante pertencia a seu marido, José Roberto Lamacchia. Assim, a conexão de Leila com a Top Gol era estabelecida através dessa estrutura complexa.

Reestruturações Societárias e a Saída de Leila

Em abril do mesmo ano, a Top Gol passou por uma série de mudanças em seu quadro societário. Inicialmente, a empresa passou a pertencer exclusivamente à Siena. Simultaneamente, a Siena tornou-se propriedade da Ravena. A mudança mais significativa, contudo, foi quando a Ravena deixou de ser uma subsidiária da Crefipar para ser controlada diretamente por José Roberto Lamacchia.

Essa movimentação societária foi estratégica e retirou Leila Pereira da estrutura de forma definitiva, desvinculando-a formalmente da empresa. O contrato social da companhia, desde então, passou a ter como objeto a gestão de atividades do futebol e a participação em Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), um claro indicativo de seus futuros interesses.

As Primeiras Tentativas de Aproximação com o Vasco

Um mês após essas reestruturações, em maio de 2024, o jornalista Rodrigo Capelo noticiou que José Roberto Lamacchia, por meio da Crefisa, já havia tentado adquirir a SAF do Vasco. As conversas, na época, ocorreram com a 777 Partners, antiga proprietária da SAF vascaína. No entanto, essas negociações foram interrompidas.

O motivo da interrupção foi o risco de um possível conflito de interesses, especialmente porque Leila Pereira estava em campanha para a reeleição na presidência do Palmeiras. A proximidade da Crefisa, principal patrocinadora do Palmeiras e ligada à família Lamacchia, com a aquisição de outro clube, gerou preocupações no cenário esportivo.

A Chegada de Marcos Lamacchia e a Aceleração do Processo

Avançando para agosto de 2025, um ano e meio após as primeiras tentativas, José Roberto Lamacchia transferiu o controle acionário da Top Gol para seu filho, Marcos Lamacchia, que assumiu 99% da empresa. Logo em seguida, a Top Gol mudou oficialmente seu nome para Almirante Participações, marcando uma nova fase.

Em outubro de 2025, a Crefisa realizou um empréstimo de R$ 80 milhões ao Vasco. Como garantia, foram oferecidas 20% das ações da SAF, percentual que foi posteriormente ajustado para 10%. Essa garantia levantou questionamentos no meio do futebol, como apontado pelo presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, em abril deste ano.

Baptista questionou a escolha das ações da SAF como garantia, sugerindo que “quem poderia pedir ações da SAF como garantia? Talvez quem queira assumir a SAF do Vasco”. Foi sob o controle de Marcos Lamacchia que as negociações da Almirante com o Vasco avançaram significativamente e os documentos foram firmados, consolidando a empresa como principal interessada na aquisição.

O Leilão Judicial do Vasco: Almirante como ‘Stalking Horse’

O processo de aquisição da SAF do Vasco da Gama culmina em um leilão judicial, parte do processo de recuperação judicial do clube, que ocorrerá nesta sexta-feira. O que está em jogo é a venda de 90% da nova SAF do clube carioca, em um formato de envelopes lacrados, onde os interessados apresentam suas propostas na audiência.

Nesse cenário, a Almirante Participações entra como a “stalking horse”, um termo que a posiciona com vantagem. Isso significa que a empresa já registrou uma proposta de referência no processo, que inclui um investimento mínimo de R$ 650 milhões ao longo de cinco anos, conforme o edital de julho. Além disso, a Almirante tem o direito de cobrir qualquer oferta concorrente que possa surgir no leilão.

Após a definição da proposta vencedora no leilão, a aquisição ainda precisará passar pela aprovação dos conselhos do clube, garantindo que o processo seja transparente e benéfico para o futuro do Vasco da Gama.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *