A armadilha do crédito fácil e juros altos aprisiona mais da metade da população adulta brasileira

A história de Mona Lisa Santana, uma mulher de 32 anos que acumulou 44 cartões de crédito e uma dívida de R$ 1,4 milhão sem comprovação de renda, é um retrato dramático do cenário atual do Brasil. Ela usava um cartão para cobrir o outro, em um ciclo vicioso agravado pelos juros sobre juros.

Seu caso não é isolado, mas sim um reflexo de uma realidade que atinge milhões de famílias. O país vive um momento crítico de endividamento, com um número recorde de pessoas com contas atrasadas.

Conforme o Mapa da Inadimplência da Serasa, em agosto, 83,9 milhões de brasileiros estavam com dívidas atrasadas há mais de 90 dias, o que representa pouco mais da metade, ou 51%, da população adulta do país.

A Armadilha do Crédito Fácil e a Espiral da Dívida

Mona Lisa Santana comemorou cada novo cartão de crédito como uma conquista. Com os cartões, teve acesso a limites de R$ 50 mil, R$ 60 mil e até R$ 150 mil, mesmo sem comprovar renda. A partir da pandemia, ela acumulou 44 cartões de bancos tradicionais, digitais e de lojas, conseguindo crédito para si, para a irmã e para a mãe, sem necessidade de confirmação de renda. Os juros altos sobre juros transformaram sua dívida em R$ 1,4 milhão.

Edgard Senaha, um livreiro de 37 anos de São Paulo, deve cerca de R$ 7 mil no cartão de crédito. Seus ganhos flutuantes dificultam a programação financeira. A situação piorou há três anos, quando as pequenas livrarias perderam espaço para grandes editoras nas plataformas digitais, e se agravou quando sua esposa perdeu o emprego, levando consigo a principal renda da casa.

Edgard recorreu a empréstimos para pagar o cartão. Fez um, dois, três. Prestes a contratar o quarto, decidiu parar o ciclo, bloqueou o cartão e deixou a dívida rolar, agora esperando uma proposta de renegociação. Ele desabafa, “Eu não consigo pagar [o saldo de R$ 6.900] nem em três meses. Isso me dá angústia, tristeza e preocupação.”

O contexto que leva Mona Lisa, Edgard e milhões de outros brasileiros a atrasarem suas contas não é recente e não se resume a histórias individuais. Maria Paula Bertran, professora de Direito Econômico na USP de Ribeirão Preto, descreve uma lógica de “ascensão social pelo endividamento” que vigorou no Brasil a partir dos anos 2000. Pessoas de classes mais baixas acessaram o consumo pelo crédito, e os banqueiros lucraram com juros, até que esse modelo saturou.

O Cenário Alarmante da Inadimplência no Brasil

O cartão de crédito lidera as contas atrasadas do brasileiro, com 27,2% das dívidas em aberto, seguido das contas básicas, como luz, água e gás, com 21,1%. Faturas de financeiras representam 19,9% e serviços, 11,6%, segundo dados da Serasa.

A facilidade de acesso ao crédito, especialmente durante a pandemia, levou muitos brasileiros a se endividarem quando se viram sem renda, afirma Flávio Ataliba, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). A situação foi agravada pelos juros altos. A taxa básica de juros, a Selic, subiu de 2% ao ano em 2020 para o patamar de 15%, e hoje está em 13,75%. O empréstimo ficou mais caro, e nas linhas de crédito pessoal, as taxas podem atingir três dígitos ao ano.

Para Bianka Amaral, especialista da Serasa em educação financeira, a questão vai além do acesso facilitado. “É um cenário diverso. O crédito é utilizado para diferentes finalidades na vida de cada consumidor”, afirma.

A Expansão do Crédito e o Aumento da Bancarização

A expansão do acesso ao crédito para pessoa física é evidente nos dados do Banco Central. Em março de 2011, a concessão de crédito para pessoas físicas somava R$ 213,7 bilhões em valores atualizados pela inflação. Em julho de 2026, esse montante saltou para R$ 406,4 bilhões, um incremento de 90%.

Entre 2016 e 2026, o número de inadimplentes aumentou 38,1%, e o volume total de dívidas teve um salto de 54,9%, de acordo com a Serasa.

A partir de 2010, o crédito fácil se tornou mais acessível com a chegada de novos players no mercado financeiro, como as fintechs, a digitalização dos grandes bancos e o estímulo governamental a modalidades de empréstimos, como o Financiamento Estudantil (Fies) e o Minha Casa Minha Vida. Em 2018, as fintechs ganharam autonomia do Banco Central para conceder crédito diretamente à população.

Uma pesquisa da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) mostra que, em 2016, as fintechs movimentaram R$ 161 milhões em volume de crédito. Em 2025, esse número saltou para R$ 53,8 bilhões.

Outro fator que contribuiu para o cenário atual foi o pagamento de programas sociais via cartões, conforme Katherine Hennings, economista e pesquisadora associada do FGV Ibre. O objetivo era incluir a população desbancarizada no sistema formal. Benefícios como o Bolsa Família e o Pé de Meia passaram a ser pagos dessa forma, coincidindo com o avanço das instituições financeiras na concessão de crédito para as classes mais baixas.

Apesar dos ganhos sociais e econômicos da expansão do crédito e da bancarização, esse movimento também resultou na escalada do endividamento, especialmente pela falta de educação financeira no Brasil. Katherine Hennings ressalta, “As pessoas mergulharam no sistema sem a devida clareza de que todo dinheiro que elas pegam tem que ser pago um dia.”

As diferentes classes sociais lidam com a dívida de forma distinta. Entre os mais ricos, 82% do uso do cartão é pago à vista no vencimento da fatura. Esse índice cai para 64% entre as famílias de baixa renda, que recorrem mais ao crédito rotativo e ao cheque especial.

O Impacto na Renda e as Tentativas de Renegociação

O avanço da inadimplência ocorre em um momento em que o Brasil registra taxas de desemprego mínimas históricas e a massa salarial tem ganhos reais contínuos. Ainda assim, o comprometimento de renda das famílias com dívidas permanece alto.

Hennings explica que o aumento dos rendimentos do trabalho está sendo drenado para o pagamento de juros e amortizações de dívidas acumuladas no passado. Cerca de 70% de toda a carteira de crédito das pessoas físicas está concentrada em modalidades com garantia. O crédito consignado, por exemplo, deduz a parcela diretamente da folha de pagamento, o que compromete a renda disponível por um longo período.

Embora seja uma modalidade com juro menor, ela deixa menos renda para necessidades básicas. Assim, as famílias acabam recorrendo a linhas de crédito emergenciais e caras, destaca Hennings.

Mona Lisa Santana conseguiu limpar o nome após três anos renegociando e pagando os débitos, com auxílio da Serasa. Edgard Senaha ainda busca formas de sair do vermelho. Neste ano, o governo federal anunciou o Desenrola 2.0, programa que renegociou R$ 68 bilhões em dívidas de famílias e empresas.

Para Ataliba, do FGV/Ibre, o programa trata o sintoma, mas não a causa. “Você não consegue resolver o problema de forma estrutural”, argumenta. Em nota, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) informou que a aprovação de cada financiamento considera as políticas de cada banco, que adotam medidas para prevenir o superendividamento e a inadimplência. A federação também destacou os compromissos voluntários de autorregulação voltados à transparência, concessão responsável de crédito, proteção do cliente hipervulnerável, ações de educação e orientação financeira, e mutirões de repactuação de dívidas.


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