A delação que redefiniu o combate ao crime organizado no Brasil

A visão das autoridades sobre as operações financeiras do Primeiro Comando da Capital (PCC) mudou drasticamente após a delação de Gritzbach. Seus depoimentos trouxeram à luz um intrincado sistema de lavagem de dinheiro que utilizava ferramentas modernas, como fintechs e criptomoedas, para movimentar fortunas ilícitas.

Essa nova compreensão impulsionou megaoperações e revelou a sofisticação da facção criminosa em suas atividades financeiras. No entanto, a coragem de Gritzbach em expor esses detalhes teve um preço altíssimo.

Sua história, vida e morte são detalhadas no documentário “Gritzbach – O delator morto no aeroporto”, uma nova produção do UOL Prime, que conta em detalhes essa trama complexa, conforme informações divulgadas pelo UOL.

O esquema bilionário do PCC com fintechs e criptomoedas

Gritzbach explicou aos promotores do Gaeco, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, como tokens, criptomoedas e fintechs serviam como uma ponte entre valores em espécie e o sistema bancário. Ele detalhou a criação de fintechs em nome de terceiros e a abertura de múltiplas contas vinculadas a diferentes CNPJs.

O dinheiro, uma vez depositado, era movimentado por transferências eletrônicas disponíveis (TED), dificultando o rastreamento e a identificação dos verdadeiros operadores. As empresas envolvidas cobravam taxas de 1% a 2,5% pela intermediação dessas operações financeiras.

O empresário usou o exemplo da compra de imóveis para ilustrar o esquema. Alguém com R$ 1 milhão em dinheiro ilícito poderia entregá-lo a uma fintech, que realizaria a operação financeira necessária para a compra de um apartamento, conferindo uma aparência de legalidade aos recursos.

“A partir do momento que você faz essa conta inversa, você vai chegar nessa conta fantasma”, afirmou Gritzbach em sua delação ao Ministério Público. Ele também revelou que o mecanismo era usado para lavar dinheiro do tráfico internacional de drogas, comparando as fintechs aos doleiros que operam com o chamado dólar-cabo.

O promotor de Justiça do MP-SP, Lincoln Gakiya, em entrevista ao UOL, destacou a importância da delação: “Nós já tínhamos investigações em andamento. Eu mesmo venho falando das fintechs há quatro anos, porque já havia outras que já estavam no radar do MP. Mas o Gritzbach trouxe provas. Ele trouxe luz a esse problema, inclusive, de fintechs.”

Menos de dois anos após a delação, a Operação Carbono Oculto foi deflagrada pelo Ministério Público, em parceria com a Receita Federal e a Polícia Federal. Considerada a maior já feita contra o PCC, a ação revelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e adulteração de combustíveis, com foco na região da Avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo.

Os vínculos perigosos de Gritzbach com a facção e sua queda

Gritzbach revelou ao MP que seu conhecimento sobre o PCC vinha dos negócios que manteve com integrantes da facção. Ele afirmou ter conhecido membros do grupo por meio do empresário Robinson Granger Moura, conhecido como Molly, quando trabalhava na construtora Porte Engenharia.

Molly, que nega ligações com o crime organizado, teria apresentado Gritzbach a figuras como Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, e Claudio Marcos de Almeida, o Django, em meados de 2017. Gritzbach admitiu ter feito negócios com ambos os membros do PCC.

A trama se complicou com a morte de Cara Preta e seu segurança, Antônnio Corona Neto, o Sem Sangue, em dezembro de 2021, no Tatuapé. Duas semanas depois, Gritzbach foi chamado para uma reunião que se revelou um “tribunal do crime”, onde foi acusado de ter ordenado o duplo homicídio.

Ele e seu sócio em investimentos em criptomoedas, Pablo Henrique Borges, também teriam movimentado dinheiro de integrantes do PCC em ativos digitais. A facção acreditava que Gritzbach havia mandado matar Cara Preta para não devolver o dinheiro.

A delação expôs, ainda, conflitos que teriam levado Gritzbach a denunciar policiais civis que investigavam a morte de Cara Preta. Ele alegou que, após sua prisão em fevereiro de 2022, o delegado Fábio Baena e o chefe dos investigadores, Eduardo Monteiro, pediram R$ 40 milhões para retirá-lo da investigação, o que ambos negam.

O assassinato no aeroporto de Guarulhos

Em 1º de novembro de 2024, Gritzbach viajou para São Miguel dos Milagres, Alagoas, com sua namorada e dois seguranças. Durante a viagem, ele pediu que os seguranças fossem a Maceió buscar joias de um suposto credor, que o DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) identificou como pertencentes a Pablo, seu sócio, que tinha uma dívida milionária com Gritzbach.

No retorno, Gritzbach seria recebido no aeroporto de Guarulhos por quatro PMs que faziam sua segurança particular, seu filho e um amigo da família. O plano era seguir para casa em dois carros blindados, mas um dos veículos quebrou, alterando o esquema de segurança.

Um dos seguranças que havia viajado para Alagoas chegou ao local cerca de dez minutos antes do grupo. Ele sinalizou para a escolta se aproximar e, depois, para Gritzbach e a namorada entrarem no carro. Segundos depois, Gritzbach foi assassinado.

Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, os atiradores foram o cabo da PM Dênis Martins e o soldado Ruan Rodrigues, com o tenente da PM Fernando Genauro dirigindo o carro usado no crime. Todos negam as acusações.

A polícia identificou Kauê do Amaral Coelho como o olheiro no aeroporto, que acompanhou Gritzbach e fez uma ligação após sua saída, fugindo em seguida. Kauê, posteriormente localizado no Complexo da Penha, no Rio, desapareceu e é suspeito de ter sido morto.

As múltiplas motivações por trás da morte do delator

A investigação aponta três possíveis motivações para o assassinato de Gritzbach: as mortes de Cara Preta e Sem Sangue, o desaparecimento de dinheiro investido em criptomoedas e, principalmente, a própria delação que expôs o modus operandi do PCC.

A Polícia Civil apontou Emílio Castilho, o Cigarreira, e Diego Amaral, o Didi, como os mandantes do crime. Cigarreira também desapareceu após passar pelo Complexo da Penha, enquanto Didi estaria na Bolívia, conforme as autoridades.

O advogado dos militares acusados, Mauro Ribar Júnior, questiona a investigação: “Policiais do DHPP investigaram Gritzbach. Policiais do DHPP prenderam Gritzbach. Policiais do DHPP extorquiram [dinheiro de] Gritzbach. Foram presos por causa disso. Policiais do DHPP vão investigar a morte de Gritzbach? Os policiais [militares acusados do crime] são inocentes.”


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