Crise Argentina Aprofunda Endividamento e Fecha Fábricas: O Desafio Social do ‘Milagre Econômico’ de Milei
A Argentina, sob a gestão do presidente Javier Milei, vê seu panorama econômico em um momento de paradoxos. De um lado, o governo celebra conquistas significativas no ajuste fiscal e na contenção da inflação, outrora galopante.
Do outro, a sociedade argentina sente o peso de um custo social elevado, marcado pelo aumento do desemprego, o fechamento de fábricas e um endividamento que atinge patamares históricos, colocando em xeque a sustentabilidade do chamado ‘milagre econômico’.
A situação é tão crítica que levou sindicatos a organizarem marchas em defesa dos endividados, enquanto a imprensa internacional e doméstica questiona a real melhora na vida dos cidadãos, conforme informações da fonte.
O Contraste entre a Estabilização Macroeconômica e a Crise Social
Javier Milei assumiu a presidência com a promessa de um programa econômico drástico. Seus pilares eram o déficit zero nas contas públicas, corte de gastos, redução de subsídios, desaceleração da emissão monetária e uma abertura econômica sem precedentes.
O objetivo central era eliminar desequilíbrios históricos e controlar uma inflação que, ao início de seu mandato, superava 25% ao mês. E, de fato, o governo alcançou vitórias inegáveis nesse front.
A inflação mensal, por exemplo, caiu para uma taxa entre 1,9% e 3,4% nos primeiros oito meses de 2026. As contas públicas também apresentaram uma melhora notável, registrando um superávit fiscal primário de 1,8% do PIB no primeiro ano, o primeiro desde 2008.
Este ajuste incluiu cortes severos em diversas frentes, como subsídios a serviços públicos, obras públicas e gastos sociais. A redução nos gastos com obras públicas chegou a impressionantes 87% no primeiro ano, e os recursos discricionários para as províncias diminuíram 76%.
A melhora fiscal reduziu a necessidade de emissão monetária, contribuindo para a desaceleração da inflação. Apesar de uma retração inicial de 1,3% no PIB em seu primeiro ano, a economia voltou a crescer 4,4% em 2025, com projeções do FMI de alta de 3,5% para este ano.
Setores exportadores, como petróleo, gás e mineração, se beneficiaram do novo cenário. Contudo, grande parte da indústria nacional e do comércio interno enfrenta dificuldades crescentes.
Fábricas Fecham as Portas e o Desemprego Aumenta na Argentina
Apesar dos indicadores macroeconômicos positivos, a realidade no chão de fábrica é preocupante. Desde a chegada de Milei ao poder, mais de 30 mil empresas fecharam na Argentina, segundo o centro de pesquisas Fundar, embora o governo questione esses dados.
Empresários e economistas atribuem esse movimento à queda do consumo interno, à perda do poder de compra das famílias, aos elevados custos operacionais e, principalmente, à maior concorrência externa impulsionada pela abertura econômica. O governo, por sua vez, defende que este é um processo de reorganização necessário.
Casos emblemáticos incluem o fechamento da Fate, maior fabricante de pneus do país, e do grupo brasileiro Dass, que produzia calçados. A Whirlpool também desativou uma fábrica de máquinas de lavar roupa.
Um dos casos mais repercutidos foi o do grupo têxtil Will Der S.A., que produzia para marcas globais como Adidas e Puma. Em agosto, a empresa fechou as portas, demitindo 120 trabalhadores, e o lamento de um dos sócios, Armando Anasal, viralizou: “Acreditem em mim, a política nos arruinou”, disse ele, aos prantos.
O impacto no mercado de trabalho é evidente. A taxa de desemprego subiu de 5,7% no quarto trimestre de 2023 para 7,8% no primeiro trimestre de 2026. Além disso, 241.176 argentinos deixaram de ter carteira assinada no setor privado entre novembro de 2023 e maio de 2026, com a indústria de manufaturas concentrando 35,5% dessa queda.
Viver na Argentina Ficou Mais Caro: O Impacto dos Cortes de Subsídios
O custo de vida na Argentina disparou, criando um descompasso alarmante entre o aumento das despesas e os reajustes salariais. O fim dos subsídios federais a serviços básicos, uma medida crucial para o ajuste fiscal, impactou diretamente as famílias.
Tarifas de luz, gás, água e transporte público registraram um aumento médio de 966% entre dezembro de 2023 e julho de 2026, conforme dados do Infobae. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 241%.
Embora a inflação tenha desacelerado, os salários não conseguiram acompanhar essa escalada de preços. O ajuste fiscal atingiu principalmente trabalhadores do setor público, aposentados e famílias de baixa renda, que agora destinam parcelas maiores de sua renda para contas essenciais.
Dados da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA) revelam que, entre novembro de 2023 e abril de 2026, o salário mínimo perdeu 39,3% de seu poder real de compra, intensificando a crise argentina para milhões de pessoas.
A Espiral do Endividamento e a Postura do Governo Milei
Com mais desempregados e a renda das famílias valendo menos, a inadimplência cresceu exponencialmente. O argentino Fernando Pérez, 47 anos, é um exemplo, tendo que se desdobrar em trabalhos para cobrir despesas e acumular dívidas.
“Devo cerca de 2 milhões de pesos (R$7.300). Já cancelei o plano de saúde e cortei tudo o que podia. O cenário é assustador. Eu e minha esposa muitas vezes temos de optar entre remédios e comida”, relatou Pérez, um dos que protestaram contra o endividamento em Buenos Aires.
A massa de inadimplentes no país chegou a quase 6 milhões de pessoas, representando 13,6% da população, um recorde histórico, segundo o Banco Central da República Argentina. Este número alarmante levou à inédita marcha dos sindicatos em defesa dos endividados.
A estabilização econômica, paradoxalmente, permitiu aos bancos ampliar a oferta de empréstimos, mas a inflação mais baixa fez com que o valor real das dívidas não recuasse como antes. Ao mesmo tempo, as medidas de austeridade forçaram muitos consumidores, como servidores e aposentados, a recorrer a empréstimos para manter o consumo.
Isso ocorre enquanto a taxa real de juros ultrapassa dois, e por vezes, três dígitos. A economista Mariana González, do CIFRA, destaca o crescimento inédito de 16% nos financiamentos individuais fora do sistema bancário, por meio de plataformas virtuais que cobram juros de até 700% ao ano.
O economista brasileiro Fabio Giambiagi, do FGV IBRE, compara a situação argentina com a brasileira, apontando a combinação de crescimento baixo, juros elevados e a proliferação de plataformas de apostas como fatores que geram estragos nas famílias. A diferença, ele pontua, é a abordagem do governo.
“No caso argentino, Milei tem tratado isso como um ‘problema entre particulares’”, afirma Giambiagi. O partido Liberdade Avança (LLA) ignora quase 30 projetos de lei sobre endividados, que estão engavetados. “Ouvir o presidente dizer abertamente que ‘ninguém colocou um revólver na cabeça das pessoas para se endividarem’, denota uma falta de empatia raramente vista na História das democracias modernas”, observa o economista.
A crise argentina e seus desdobramentos econômicos certamente ressoarão no âmbito político. Milei já anunciou sua intenção de disputar um novo mandato em 2027. O resultado dirá se os avanços nas contas públicas compensaram os severos custos sociais do ajuste fiscal para a população.

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