Todos os anos, um ritual se repete no cenário diplomático global: o presidente do Brasil é o primeiro chefe de Estado a discursar na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), um dos eventos mais importantes da agenda internacional.

Essa posição de destaque não é um acaso, mas sim o resultado de uma tradição consolidada ao longo de décadas, que confere ao Brasil uma visibilidade singular e um peso estratégico no debate mundial.

Entender as raízes dessa prática revela a influência e o reconhecimento da diplomacia brasileira no cenário internacional, conforme análise de especialistas e publicações especializadas.

As Origens de Uma Tradição com Raízes na Guerra Fria

A resposta para a pergunta “Por que o Brasil sempre abre a Assembleia Geral da ONU” reside menos em regras formais e mais em uma sólida tradição diplomática. Segundo o livro “O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011”, a prática teria começado em 1949, em meio ao clima de confronto da Guerra Fria.

Esse período exigia uma solução que evitasse dar primazia tanto aos Estados Unidos quanto à União Soviética, potências em ascensão. O Brasil emergiu como uma escolha neutra e respeitada para iniciar os debates da Assembleia Geral da ONU.

Desde então, essa se tornou uma praxe. Anualmente, o secretário-geral da ONU consulta a missão brasileira sobre o desejo de manter a tradição, e a resposta invariavelmente positiva assegura a continuidade dessa honraria que “honra e distingue o Brasil”.

O Papel Fundamental da Diplomacia Brasileira e Seus Pilares

A relevância do Brasil no início da ONU também tem raízes mais formais. Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), destaca a importância do país na constituição da Carta da ONU e nas discussões para a criação da organização.

O diplomata Oswaldo Aranha, por exemplo, teve um papel essencial na primeira Assembleia Geral, conduzindo o processo que levou à criação do Estado de Israel. A diplomacia brasileira, historicamente, é vista como capaz de mediar conflitos e construir consensos, o que ajuda a explicar a continuidade dessa tradição.

Essa tradição também pode ser interpretada como um reconhecimento do papel que o Brasil buscava exercer no pós-guerra: uma voz ativa no multilateralismo. Alguns veem isso como um “prêmio de consolação”, já que o Brasil não obteve um assento permanente no Conselho de Segurança, principalmente devido à resistência de países europeus e da União Soviética.

No entanto, conforme Leite, essa circunstância demonstra a confiança depositada na diplomacia brasileira. Desde 1955, o Brasil abre de maneira constante o Debate Geral, sendo seguido pelo país anfitrião, os Estados Unidos, o que confere estabilidade ao protocolo da Assembleia Geral da ONU.

Vitrine Global e o Peso Estratégico do Discurso Brasileiro

Mais do que uma curiosidade protocolar, a abertura dos discursos na ONU confere ao Brasil uma visibilidade singular. É uma vitrine estratégica para projetar sua política externa, expor prioridades nacionais e posicionar-se em temas globais diante de chefes de Estado, diplomatas e da imprensa internacional.

Lucas Leite observa que essa tradição, embora simbólica, é também um “elemento concreto de poder do Brasil”. Ser o primeiro a falar garante que a voz do país seja ouvida em um momento de máxima atenção, influenciando o tom inicial do debate global.

Paulo Velasco complementa, brincando que, mesmo que muitos estejam ali para ouvir o representante americano, que fala logo depois, o Brasil acaba tendo mais repercussão do que outros países que discursam em dias seguintes, quando a atenção é menor. Isso reforça o privilégio de abrir a Assembleia Geral da ONU.

Voz Autônoma e a Definição do Tom do Debate Global

Ao longo das décadas, a diplomacia brasileira utilizou esse espaço privilegiado para fazer análises amplas da conjuntura internacional, defendendo temas estruturais como o combate à fome, o desenvolvimento e a reforma de instituições multilaterais.

A diplomacia brasileira oscilou entre diferentes linhas, de uma postura americanista alinhada aos Estados Unidos a uma mais globalista, promovendo autonomia e desenvolvimento dos países do Sul Global. Essa “pendulação” é visível nos discursos na Assembleia Geral, segundo Leite.

Mesmo governos de diferentes espectros políticos, como Temer, Fernando Henrique ou Sarney, repetiam linhas mestras de desenvolvimento, combate à pobreza, meio ambiente e democracia. A exceção foi o governo Bolsonaro, que adotou um discurso populista e subserviente aos EUA, negando o multilateralismo.

Historicamente, os discursos brasileiros ajudam a definir o tom do debate, chamando atenção para questões cruciais. Simbolicamente e na prática, o Brasil representa uma ponte entre mundos: Ocidente e Oriente, Norte e Sul, autonomia e desenvolvimento, um papel crucial para quem sempre abre a Assembleia Geral da ONU.


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