A vida da professora de matemática Laya, mãe de três filhos, mudou drasticamente após uma batida na porta e uma ameaça velada em Damasco, capital da Síria. Alauita, da mesma seita religiosa do ex-ditador Bashar al-Assad, Laya e sua família eram constantemente alvos de ataques, mesmo sem apoiar o regime, que, segundo ela, havia matado membros de sua família.
O medo se intensificou quando grupos rebeldes, descritos por ela como extremistas, entraram em Damasco pela primeira vez em 2024, após a queda do regime. A ameaça, no entanto, veio de um estranho que advertiu sobre as aulas de piano e dança da filha de Laya: ‘Você deveria parar com isso. Se não parar, talvez a levemos para a casa das irmãs‘.
Esse incidente, que culminou na decisão da família de se mudar para o Líbano, é um exemplo vívido de como um rumor sobre sequestro de mulheres e conversões forçadas tem dividido a Síria e gerado tensão no país pós-Assad, conforme informações divulgadas pela DW.
O temor que expulsou uma família
Em círculos islâmicos conservadores, atividades como tocar instrumentos musicais e dançar em público são vistas com desaprovação. A menção à ‘casa das irmãs‘ não era novidade para Laya, que já havia lido na internet sobre o suposto local onde mulheres sírias de outras seitas eram forçadas a se converter ao islamismo.
Alguns dias após a ameaça, a família de Laya tomou a difícil decisão de deixar o país. ‘Eu simplesmente não quero que meus filhos cresçam assim’, explicou Laya à DW, justificando a mudança para o Líbano. A história dela reflete a crescente insegurança e o impacto psicológico de rumores na população síria, especialmente entre as minorias.
A origem do boato: O caso Batoul Alloush e os relatos de sequestro
As notícias sobre a ‘casa das irmãs‘ ganharam grande repercussão na Síria em maio, após o desaparecimento da estudante universitária alauita Batoul Alloush, de 21 anos. A jovem reapareceu mais tarde, vestindo trajes religiosos e alegando ter deixado a família para se converter ao islamismo, o que levantou suspeitas e alimentou a narrativa do sequestro.
Reham Suleiman, psicóloga da ONU que trabalha com a comunidade alauita, relatou à DW ter conhecimento de vários casos de sequestro. ‘E não se trata apenas de um incidente isolado ou de uma coincidência’, afirmou Suleiman, indicando que há evidências de que algumas mulheres foram sequestradas para resgate, vingança ou casamento forçado.
Contudo, outros casos foram encerrados com relatos de que as mulheres visitavam amigos, buscavam escapar de suas famílias ou fugiram com parceiros. Os pais de Alloush, por exemplo, insistem que a filha foi drogada ou coagida, enquanto a jovem afirma ter se convertido por vontade própria. Entidades como a Anistia Internacional e a Comissão de Inquérito da ONU sobre a Síria apontam que os casos, cujo número varia entre 40 e 60, não foram totalmente investigados.
Onde está a ‘Casa das Irmãs’? Contradições e a instrumentalização da desinformação
Diante da crescente preocupação, as autoridades sírias investigaram a ‘casa das irmãs‘. Uma porta-voz da Ministra de Assuntos Sociais da Síria, Hind Kabawat, informou à DW que o ministério não concedeu licença a nenhuma instituição com esse nome e que qualquer centro sem licença seria fechado, sugerindo a ilegalidade de tais operações.
Agências sírias de checagem de notícias, como a Verify-Sy, revelaram que as fotos do suposto prédio da ‘casa das irmãs‘ foram criadas com inteligência artificial. Um porta-voz da Verify-Sy destacou o desafio em verificar tais informações: ‘Diariamente circula um fluxo constante de alegações não comprovadas sobre supostos sequestros e assassinatos, prisões e casos de tortura em centros de detenção’.
Apesar da falta de evidências físicas, grupos parecem ter instrumentalizado o boato para interesses próprios, conforme a Shaam News Network (SNN). ‘Apesar da ausência de qualquer evidência física, as plataformas e páginas de redes sociais começaram a divulgar ‘a casa’ como um fato comprovado’, afirmou a SNN, observando que isso ‘gradualmente se tornou o foco de narrativas mais amplas sobre o ‘sequestro organizado’ de mulheres alauitas’.
O Mecanismo de Investigação Sírio (SIM), fundado em maio de 2026, associou a ‘casa das irmãs‘ a uma organização muçulmana de proselitismo, alegando coação de mulheres desaparecidas para conversão. Yasir Saleti, diretor do SIM e residente na Alemanha, sugeriu em entrevista no YouTube a existência de ‘engenharia demográfica’, embora o SIM não tenha respondido a pedidos de comentários da DW.
Organizações como a União dos Alauitas Sírios na Europa (USAE), sediada em Berlim, também têm divulgado repetidamente posts sobre a ‘casa das irmãs‘. Muaiad Ibrahim, vice-diretor da USAE, critica o novo governo sírio em seu Facebook e manifestou apoio a Ahmed Hassoun, líder religioso condenado à prisão perpétua por incitação à guerra civil e cumplicidade em homicídio doloso. A agência árabe de jornalismo investigativo DARAJ ressalta que algumas dessas organizações foram criticadas por seu aparente apoio ao regime de Assad, indicando uma complexa rede de interesses por trás da disseminação dos rumores.
O impacto da desinformação e o caminho para a estabilidade
Gregory Waters, pesquisador sênior do Atlantic Council, que acompanha os eventos na Síria, afirma que ‘esse tipo de informação vai e volta em ondas, mas tem um impacto real e é bastante poderoso’. Ele observa uma intenção política de ‘isolar os alauitas, de instigar o medo neles e impedi-los de se relacionar com o governo e com os sunitas, e, talvez, até certo ponto, levá-los a se aproximar de redes insurgentes [antigovernamentais]’.
A Verify-Sy, que realiza auditorias mensais sobre desinformação online, aponta que o incitamento é o segundo objetivo mais comum. Waters explica que a propaganda online se alimenta de eventos reais em comunidades minoritárias, inflando medos já existentes. As autoridades sírias tentam controlar influenciadores locais, mas não conseguem exercer influência sobre aqueles que estão no exterior.
Naseef Naeem, diretor de pesquisa da Fundação Candid, acredita que o governo de Damasco está focado em estabelecer instituições e estabilizar o país. Ele sugere que, no futuro, um diálogo nacional mais amplo entre os diferentes grupos comunitários será essencial para a Síria. Tanto Naeem quanto Waters concordam que a recuperação econômica pode ser a chave para melhorar as relações.
‘Assim que a recuperação econômica realmente começar, muitos desses fenômenos desaparecerão gradualmente’, diz Naeem. Waters cita o boom turístico na costa síria, uma região predominantemente alauita, que atraiu muitos sunitas, como um exemplo positivo de interação. ‘Todo mundo está interagindo, e amigos que estão lá me contaram que não houve assédio nem violência’, explica Waters, concluindo que o apoio ao turismo tem tido um impacto muito positivo na interação social.

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