O consumo de audiolivros no Brasil está experimentando um crescimento notável, transformando a forma como os brasileiros interagem com a leitura. Este fenômeno é impulsionado por um cenário onde a falta de tempo é uma barreira constante para muitos, e a popularidade dos podcasts já preparou o terreno para o consumo de conteúdo em áudio.

Enquanto o mercado ainda apresenta números modestos, o potencial de expansão é gigantesco, gerando otimismo entre editoras e plataformas digitais. A expectativa é que o formato se consolide rapidamente como uma alternativa prática e acessível.

Essa ascensão do audiolivro não apenas reflete uma mudança nos hábitos de consumo, mas também sinaliza um “ponto de virada” para o setor editorial brasileiro, conforme dados e análises de especialistas do mercado.

O ‘Ponto de Virada’ do Mercado Editorial

Os números, embora pequenos, são a razão da euforia no setor. Há muito espaço para crescer, especialmente considerando que a falta de tempo é a principal barreira para a leitura, apontada por 46% dos entrevistados na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, do Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria).

O bom desempenho tem levado editoras a ampliar significativamente seus catálogos de audiolivros. O grupo Companhia das Letras, por exemplo, possui cerca de 800 títulos e planeja alcançar 1.200 até o fim do ano, chegando a 2.000 até o fim de 2027.

Na editora Sextante, são 770 títulos, incluindo o selo Arqueiro, com previsão de superar 800 até dezembro. Cassiano Elek Machado, diretor editorial do grupo Record, cujo catálogo contém cerca de 800 audiolivros, afirma que “o crescimento tem sido exponencial”.

A chegada da operação de audiolivros do Spotify no Brasil, embora não confirmada oficialmente, é tratada como um fato pelo mercado. Ricardo Teperman, publisher de áudio do grupo Companhia das Letras, descreve o evento como “um ponto de virada”.

Ele observa que a base de assinantes premium do Spotify, estimada em 40 milhões de usuários, terá acesso aos audiobooks. “Se houver conversão de uma pequena fração, mesmo de 1%, já será gigante”, diz Teperman.

A Companhia das Letras recebeu da Penguin Random House, conglomerado internacional, a recomendação de “construir um catálogo consistente, porque o Brasil é visto como um dos mercados onde o áudio tende a crescer”, conta Teperman.

Segundo ele, as vendas de audiobooks da empresa cresceram 50% entre 2024 e 2025, e novamente 50% no primeiro semestre de 2026. Apesar disso, os audiolivros representam menos de 1% das vendas totais de livros na Record e na Companhia das Letras.

Na Sextante, a participação é de 2,5%, considerando o selo Arqueiro, “o que é notável”, na avaliação de Nana Vaz de Castro, diretora de aquisições da editora. Ela acredita que “não há motivo para o Brasil não acompanhar esse movimento” de crescimento visto em outros países.

A Influência dos Podcasts e Novas Plataformas Digitais

O crescimento acelerado do setor no Brasil coincide com a chegada da Audible, serviço de audiolivros e podcasts da Amazon, em outubro de 2023. Dos 800 títulos da Record, “mais de 80%” foram produzidos após a gigante norte-americana aterrissar no país, de acordo com Cassiano Elek Machado.

Adriana Alcântara, diretora-geral da Audible no Brasil, afirma que, embora não divulguem dados, acreditam “ter contribuído para o aumento do faturamento das editoras com conteúdo digital”. A Audible começou com 5.000 títulos em português e hoje tem quase o dobro.

Na Skeelo, outra plataforma de leitura digital, seis dos sete títulos mais acessados em 2025 foram audiolivros, conforme Tatiana Yoshizumi, coordenadora de conteúdo. Isso demonstra a crescente preferência pelo formato.

O relatório da Grand View Research de 2025 aponta o “interesse crescente por podcasts e pelo aprendizado baseado em áudio” como motivo para a ascensão dos audiolivros nos EUA. Essa explicação também é válida para o Brasil, segundo agentes do mercado editorial local.

“O fato de o Brasil ser o terceiro maior consumidor de podcasts no mundo faz com que muitos brasileiros já estejam predispostos a consumir [livros] no formato em áudio”, afirma Adriana Alcântara, da Audible.

Assim como podcasts, audiolivros são uma “reprodução da tradição oral”, na avaliação do livreiro e editor José Luiz Tahan. Não à toa, títulos de romance e suspense estão entre os preferidos dos consumidores de audiolivros na Companhia das Letras, Record e Intrínseca.

Superando Desafios e a ‘Falta de Tempo’

Mesmo com o avanço, o mercado editorial está atento à necessidade de criar uma cultura da escuta de livros. Alguns consumidores ainda resistem ao formato. É o caso do ministro da Educação, Leonardo Barchini, que lê artigos científicos e livros técnicos pelo celular, mas ainda não aderiu aos audiolivros.

“Não me pegou”, disse ele ao UOL durante a Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty (RJ), em julho. O jornalista Paulo Werneck, editor da revista 451, compartilha: “O audiolivro ainda não se enraizou nos meus hábitos”.

No entanto, Werneck reconhece que o formato “veio para ficar. É uma forma de consumir livros em um país pouco afeito à leitura impressa”. A resistência de parte dos consumidores exige que os editores invistam mais na qualidade da produção.

“Se a pessoa ouvir um audiolivro pela primeira vez e a narração, gravação ou edição estiverem ruins, vai dizer ‘esse formato não é para mim’”, afirma Ricardo Teperman, da Companhia das Letras. “É preciso rigor para que a experiência seja satisfatória.”

A flexibilidade do audiolivro é um de seus maiores trunfos em uma sociedade com dificuldade de se concentrar, uma “doença” que se espalha pelo mundo, na definição de José Luiz Tahan.

Tatiana Yoshizumi, da Skeelo, observa que audiolivros, assim como podcasts, podem ser consumidos durante deslocamentos e atividades domésticas. Desse modo, eles servem a quem não encontra tempo para a dedicação integral à leitura.

“As pessoas estão indo a festivais, comprando livros, levando livros para casa e tendo cada vez menos tempo para ler”, afirma o arquiteto Mauro Munhoz, cofundador e diretor artístico da Flip.

O Potencial de um País Conectado

A favor do audiolivro está o apreço do brasileiro pelo smartphone: 48,2% dos que leem e-books o fazem pelo celular. “Nos Estados Unidos e na Inglaterra, o dispositivo mais usado é o e-reader ou o tablet”, compara a economista Mariana Bueno, coordenadora de pesquisa da NielsenIQ BookData.

Mesmo com um público recorde de 40 mil pessoas na mais recente edição da Flip, o “Panorama do Consumo de Livros no Brasil” indicou um acréscimo de dois pontos percentuais em vendas de livros entre 2024 e 2025, representando 3 milhões de novos consumidores.

Embora o dado seja positivo, há quem o veja com reservas. “O número de livros vendidos aumentou, mas muitos são de colorir. Ainda se lê muito pouco no Brasil”, afirma o advogado e influenciador Pedro Pacífico, o Bookster, que incentiva a leitura para mais de 1 milhão de seguidores no Instagram.

Durante a Flip, era raro encontrar pessoas folheando livros nos bancos de praça, bares e restaurantes da cidade, apesar das longas filas na livraria oficial. Mais fácil era ver pessoas posando para fotos ou mexendo no celular.

Talvez, estivessem fazendo tudo isso enquanto ouviam um audiolivro, aproveitando a praticidade que o formato oferece para conciliar a paixão pela leitura com a rotina agitada do dia a dia.


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