Uma investigação da Polícia Federal (PF) revelou detalhes chocantes sobre a atuação do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e sua suposta rede de aliados dentro do Banco Central (BC).

Mensagens de um grupo secreto de WhatsApp, intitulado “Master”, indicam que Vorcaro recebia informações privilegiadas e articulava estratégias para tentar evitar a liquidação de sua instituição financeira.

Os diálogos, obtidos pelo UOL no celular de Vorcaro, expõem a extensão dos tentáculos do executivo em uma das instituições mais fechadas do país, conforme as informações divulgadas pelo veículo.

A Teia de Contatos no WhatsApp e os ‘Espiões’ de Vorcaro

O grupo de WhatsApp, criado em 2 de outubro de 2025, apenas 47 dias antes de o Banco Central liquidar o Master, contava com três integrantes. Além de Daniel Vorcaro, participavam Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto do mesmo departamento.

A iniciativa foi de Santana, que escreveu: “Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução”. Segundo a PF, o trio combinava táticas de pressão, trocava documentos e discutia caminhos para evitar a liquidação do Banco Master.

A análise das comunicações revela o esforço conjunto para defender os interesses privados de Vorcaro, com os servidores supostamente extrapolando os limites de suas atribuições funcionais, conforme o relatório da Polícia Federal.

O relatório da PF aponta que os dois servidores “passaram a oferecer orientação técnica reiterada, revisar minutas de documentos destinados ao próprio BCB, repassar possíveis informações internas de caráter sensível.”

Jogo Duplo e Vazamento de Informações Dentro do BC

A investigação aponta que Santana e Neves de Souza desempenhavam um papel duplo. Enquanto auxiliavam Vorcaro, eles também davam andamento a denúncias que, ironicamente, serviram de base para a investigação da PF sobre os desvios do banco.

Ambos foram afastados em janeiro deste ano e são suspeitos de receberem vantagens financeiras para auxiliar o banqueiro. Eles tiveram acesso a informações sigilosas da investigação interna sobre o Master.

Inclusive, foram eles que deram aval para o Banco Central denunciar o banco à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF) na semana em que Daniel Vorcaro foi preso.

O relacionamento de Vorcaro com os dois servidores era de longa data, com Neves de Souza desde 2019 e com Belline Santana desde 2023, demonstrando uma colaboração contínua na monitoria do BC.

Um exemplo claro ocorreu em 17 de fevereiro de 2025, quando Paulo Sérgio Neves de Souza alertou o banqueiro: “Meu caro, teve uma saída de recursos de 488,8 mm do Fundo Reag Growth 95 e uma entrada de 545,5 mm da Master Holding Financeira. Favor verificar e me ligar quando puder pois essa movimentação caiu no filtro da área de monitoramento. Abs.”

A Articulação para Tentar Salvar o Banco Master

As mensagens do grupo “Master” demonstram um esforço coordenado para lidar com a crise de liquidez do banco. Os servidores revisavam ofícios que o Banco Master enviaria ao BC e incentivavam Vorcaro a pressionar Ailton de Aquino, diretor de fiscalização.

Ailton de Aquino, que não é investigado e depôs como testemunha à PF, relatou vazamentos sistemáticos no caso Master. Em 3 de novembro, Vorcaro pediu a opinião dos servidores sobre um ofício ao Desup, referente à cessão de carteiras de crédito ao BRB (Banco de Brasília).

O BRB havia suspendido novas aquisições de carteiras de consignado, impactando a principal fonte de caixa do Master. Os servidores prontamente orientaram Vorcaro sobre o pedido.

Em 29 de outubro, Vorcaro questionou se o BC poderia emitir uma carta ao BTG para viabilizar a venda de um ativo. Neves de Souza respondeu: “Estou consultando o Ailton aqui”, e logo depois retornou com a posição do diretor: “Ailton respondeu que topa mandar carta nos mesmos moldes da Seguradora. É o teor que a PGBC [Procuradoria-Geral do Banco Central] aprova.”

Daniel Vorcaro pediu para ver o modelo: “Vocês têm a cópia aí pra não termos dúvida?”, e recebeu uma cópia de um ofício anterior do BC. Em 5 de novembro, o banqueiro também buscou ajuda para a questão com a Mastercard, que havia bloqueado recursos do Will Bank, parte do conglomerado Master, ameaçando ainda mais a liquidez: “Somente vou conseguir resolver se Bacen der uma batida.”

Os Momentos Finais do Banco Master e a Suspeita de Propina

No dia 17 de novembro, véspera da liquidação do Banco Master e horas antes da prisão de Vorcaro, as mensagens no grupo intensificaram-se. Neves de Souza abriu o dia com: “Bom dia Daniel! Semana decisiva”.

Vorcaro perguntou: “Alguma novidade? Ligo para o Ailton?”. Neves de Souza e Santana responderam enfaticamente: “Sim. Liga e insiste”, e “Considero fundamental, nesse momento”, respectivamente.

Após não conseguir contato com o diretor, Vorcaro pediu uma videoconferência com Aquino e os dois servidores “pra eu explicar o roteiro”. A reunião foi agendada para as 13h30 e consta na agenda pública do BC com o título “Solução de mercado – Banco Master”.

Nesse encontro, Daniel Vorcaro apresentou uma suposta proposta de venda do Master para investidores estrangeiros. Mais tarde, ele enviou uma reportagem sobre a venda a um consórcio liderado pela Fictor. Neves de Souza elogiou: “Ficou boa a reportagem”. Vorcaro esperava que “tenha dado tempo [de] Ailton avisar o Galípolo”, ao que Santana respondeu: “Acredito que sim”.

Paralelamente, em 10 de novembro de 2025, Santana e Neves de Souza deram aval ao envio de um “Relato Sucinto de Ocorrências” do BC para o MPF e a PF, detalhando indícios de crimes na gestão de fundos do Master e da Reag Investimentos. O documento descrevia um esquema de superfaturamento de ativos para inflar o patrimônio do banco, com o objetivo comum de desviar recursos do conglomerado Master.

A Polícia Federal aponta que Belline Santana foi beneficiado por um contrato de fachada para um estudo, que Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, referiam-se como pagamentos ao “Belline”. Vorcaro chegou a escrever “Que circo” ao receber o e-mail de aceitação do contrato.

Já Paulo Sérgio Neves de Souza é associado à venda de um sítio por R$ 4,8 milhões à empresa do mesmo cunhado de Vorcaro, além do custeio de uma viagem à Disney, segundo a investigação da PF. Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em 17 de novembro, enquanto tentava embarcar para Dubai.


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