Síria Sinaliza Disposição para Retomar Diálogo com Israel, Condicionada ao Fim dos Ataques

A Síria expressou, em um movimento diplomático significativo, sua abertura para retomar o diálogo com Israel, visando um acordo de segurança abrangente. Contudo, essa possibilidade é estritamente condicionada ao fim dos ataques israelenses e à retirada de suas forças de território sírio.

A declaração, feita em meio a crescentes tensões na região, foi vista como uma “oportunidade histórica” para a paz e a estabilidade regional. O Ministro das Relações Exteriores da Síria enfatizou a necessidade de construir confiança entre os dois países, que estão tecnicamente em estado de guerra há décadas.

As negociações, que contam com a mediação dos Estados Unidos, estiveram congeladas. A retomada delas dependerá da disposição de Israel em cessar as hostilidades e engajar-se em um processo diplomático construtivo, conforme informações divulgadas pela Reuters.

Exigências Sírias para a Retomada do Diálogo

O Ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shaibani, reiterou em entrevista à Reuters em Damasco, no último sábado (22), que a principal prioridade de Damasco é a interrupção dos ataques israelenses. Ele destacou que medidas para construir confiança são essenciais para qualquer progresso.

Shaibani afirmou: “Acreditamos que deve haver contato, especialmente com uma parte que ameaça constantemente a segurança da Síria. Mas, se esse contato não trouxer resultados, então não precisamos dele”. Ele complementou com uma observação franca sobre a atual relação: “Atualmente, não confiamos em Israel”.

Apesar do ceticismo, o ministro manifestou “uma esperança muito grande” de que a Síria possa construir relações estáveis com seus vizinhos, estendendo a mão para “entendimentos, para a paz, para a diplomacia” e para a estabilidade regional.

A Complexidade do Acordo de Segurança Proposto

Washington tem trabalhado há mais de um ano para intermediar um acordo de segurança entre Israel e o governo do presidente sírio Ahmed al-Sharaa, um novo aliado dos EUA. No entanto, o acordo tem se mostrado difícil de ser alcançado.

As dificuldades surgem principalmente devido à presença de tropas israelenses em território sírio e aos ataques a instalações do governo, que Israel justifica como medidas de segurança. Shaibani criticou essa abordagem, afirmando que “Israel tentou manter sua segurança por meio da força bruta e não conseguiu em lugar nenhum”.

No início do ano, os lados haviam “concordado por escrito com quase tudo” em relação a um acordo de segurança. Esse acordo exigiria que Israel parasse de atacar a Síria e estaria ligado à sua retirada de território tomado após a queda de Assad em 2024. A proposta incluía várias zonas de segurança em território sírio perto da fronteira com Israel, com a presença da ONU em uma zona de amortecimento e forças sírias em outras, com diferentes níveis de força. Contudo, Shaibani lamentou que Israel parecia evitar a implementação, não demonstrando “a vontade real de chegar a um acordo”.

O Ponto de Tensão: Ataques e Ocupação

As tensões foram evidenciadas na terça-feira (18), quando Israel bombardeou a base aérea de Abu al-Duhur. O governo israelense alegou que Damasco estava prestes a permitir o posicionamento de forças turcas ali, uma acusação negada por Síria e Turquia.

Shaibani enfatizou que, embora a Síria respeite as preocupações de segurança de Israel, Israel também deve respeitar as preocupações sírias, incluindo o uso de seu espaço aéreo, os ataques israelenses e as prisões no sul do país. A Síria e Israel estão tecnicamente em estado de guerra desde 1948, com Israel tendo tomado as Colinas de Golã em 1967.

A prioridade imediata para Damasco é “interromper a agressão israelense mesmo antes de chegar a um acordo de segurança”, disse Shaibani. Somente após essa etapa, “talvez possamos abrir os temas da paz e do Golã”.

O Papel dos EUA e o Apoio da Turquia

O enviado especial dos EUA para a Síria, Tom Barrack, anunciou na terça-feira que Washington está trabalhando para estabelecer um mecanismo de prevenção de conflitos entre Israel, Turquia e Síria. Shaibani, no entanto, alertou que ainda não há um acordo sobre esse mecanismo.

Segundo o ministro, qualquer mecanismo deve, antes de tudo, interromper os ataques e abrir caminho para o acordo de segurança, em vez de “consolidar… a ocupação israelense”. O Departamento de Estado dos EUA não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre o assunto.

A Síria conta com o apoio da Turquia para treinamento militar e cooperação, uma relação que Shaibani destacou ser importante, assim como com Jordânia e Arábia Saudita. Ele afirmou que Damasco agradece o apoio da Turquia na reconstrução de suas forças armadas e que “não vamos abrir mão do apoio”.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *