Uma estatal vinculada ao governo federal, a PortosRio, tornou-se o centro de uma controvérsia após a revelação de um contrato milionário. O acordo, no valor de R$ 35 milhões com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estaria sendo utilizado para abrigar um verdadeiro ‘exército eleitoral‘.

A investigação aponta que centenas de bolsistas remunerados por este convênio possuem fortes ligações com a classe política, incluindo cabos eleitorais, candidatos e parentes de figuras públicas.

Essas denúncias levantam sérias questões sobre o uso de recursos públicos e o possível aparelhamento de uma empresa estatal para fins políticos, conforme informações divulgadas pelo UOL.

A Teia Política na PortosRio e a Influência de Waguinho

A PortosRio, antiga Companhia Docas do Rio de Janeiro, que administra importantes portos fluminenses, teria se tornado uma área de influência do ex-prefeito de Belford Roxo, Wagner Carneiro, conhecido como Waguinho, do Republicanos.

Waguinho, que não possui vínculo empregatício com a empresa ou a universidade, é apontado como a figura política a quem o presidente Lula concedeu poder de influência sobre a estatal. O Palácio do Planalto, contudo, nega essa afirmação, declarando que as nomeações e a gestão das estatais seguem a legislação e os mecanismos de governança vigentes.

O UOL teve acesso a uma folha de pagamentos sigilosa, no valor de R$ 8,9 milhões, que detalha a extensão dessa rede de apoio político. Entre janeiro e março deste ano, 305 bolsistas com conexões políticas receberam R$ 3,3 milhões da primeira parcela do convênio.

Esses bolsistas incluem ex-funcionários da Prefeitura de Belford Roxo, dirigentes e filiados partidários, advogados e familiares de políticos e aliados. A lista chega a incluir até mesmo um criador de jingle.

O Convênio Suspeito e o Precedente do Ceperj

O contrato com a UFRJ foi fechado sem licitação, prevendo o repasse da verba em três parcelas até setembro deste ano, mês que antecede as eleições. Por contrato, os recursos deveriam ser aplicados exclusivamente em estudos científicos e ações de integração entre portos e comunidades.

A suspensão temporária do convênio atrasou o pagamento da segunda parcela, prevista para abril, mas o acordo foi restabelecido em junho. A situação remete ao caso da Fundação Ceperj, no Rio de Janeiro, onde o governo estadual contratou mais de 18 mil pessoas sem transparência em 2022.

Aquele caso resultou na condenação do ex-governador Cláudio Castro (PL) a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder político e econômico. A semelhança levanta alarmes sobre a legalidade e a finalidade do contrato da PortosRio.

Beneficiários e Conexões na Baixada Fluminense

A análise dos nomes dos bolsistas revela uma vasta rede de conexões. Alex Pagniez, primo de um ex-vereador que foi preso sob suspeita de chefiar milícia em Belford Roxo, recebeu R$ 15 mil. A família do ex-secretário de Belford Roxo, Leandro do Waguinho, recebeu R$ 41 mil.

Patrick Senhorinho, assessor de Relações Institucionais da PortosRio e ex-funcionário do gabinete da deputada Daniela Carneiro, mulher de Waguinho, teve sua família agraciada com R$ 150 mil em bolsas. Imagens mostram Senhorinho ainda atuando para a parlamentar, mesmo após assumir o cargo na estatal.

O ex-vereador de Belford Roxo, André da Prestação, que hoje é gerente na estatal, viu sua mulher e filho receberem R$ 22,5 mil como bolsistas. Ele foi flagrado em reunião eleitoral com Waguinho e Daniela.

A influência se estende por pelo menos 48 municípios do Rio de Janeiro. Em Paracambi, reduto do PT, um filho do secretário municipal de Transportes recebeu R$ 15 mil. Em Itaocara, o ex-secretário de Agricultura, Roldiney Navega, referiu-se a Waguinho como seu ‘pré-candidato ao Senado’ após receber R$ 15 mil.

Até mesmo integrantes de partidos adversários do PT, como o PL, foram beneficiados. O pré-candidato a deputado estadual Edson Cavalcanti, conhecido como Thimothinho, e uma cabo eleitoral que atuou para ele em 2024, receberam R$ 17 mil.

Críticas Internas e a Defesa da PortosRio

A aproximação entre Lula e Waguinho se deu nas eleições de 2022, quando o ex-prefeito apoiou o petista na Baixada Fluminense. Após a vitória, Lula nomeou Daniela Carneiro para o Ministério do Turismo e, posteriormente, elogiou publicamente o apoio de Waguinho, afirmando que ele ‘não teve medo dos negacionistas, não teve medo dos malucos e resolveu me apoiar’.

A nomeação de Flávio Vieira da Silva, ex-secretário de Saúde de Belford Roxo, para a presidência da PortosRio, e a de Ricardo Ganem Leal, que sugeriu o convênio com a UFRJ, reforçam a tese de influência política. Leal avaliou que o quadro técnico da PortosRio tinha ‘capacidade pífia’ para certas demandas, justificando a busca por apoio externo.

Um parecer da auditoria interna da estatal, obtido pelo UOL, apontou que o contrato foi assinado em apenas 75 dias e aprovou a utilização de recursos próprios de caixa, caracterizando uma ‘queima de caixa’, pois não havia verba orçamentária prevista.

Procurada, a PortosRio defendeu-se, afirmando que não firmou contratos individuais com os bolsistas, mas sim um convênio com a UFRJ para assistência técnica e científica. A estatal declarou não manter cadastro de filiação político-partidária e não validar a metodologia nem as conclusões do levantamento do UOL.

A UFRJ informou que existem dois grupos de bolsistas: os selecionados pela universidade e os indicados pela PortosRio para cursos online, como parte do programa Capacita Portos. Waguinho e Daniela Carneiro negaram participação na seleção dos bolsistas ou em quaisquer procedimentos administrativos.


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