Por muito tempo, o vinho foi visto apenas como um produto agrícola, mas essa percepção mudou radicalmente. Hoje, a bebida está no centro de discussões sobre turismo, economia e desenvolvimento regional, atraindo a atenção de organizações globais.

Uma taça de vinho, na verdade, raramente se esgota em si mesma. Ela se desdobra em estadias em hotéis, refeições em restaurantes, compras em lojas locais e até abastecimento em postos de gasolina, movimentando toda uma cadeia de serviços.

É essa visão abrangente que levou os vinhos a entrar no radar de preocupações da ONU Turismo, conforme informações divulgadas durante a preparação do I Fórum de Enoturismo e Gastronomia das Américas.

O Enoturismo: Mais Que Vinho, Uma Cadeia de Oportunidades

O enoturismo é a chave para essa nova perspectiva. Ele transforma vinícolas em catalisadores de progresso, impactando muito mais do que apenas a produção de uvas.

Daniel Nepomuceno, diretor de Novos Negócios e Parcerias Público-Privadas da ONU Turismo, destacou a importância de “colocar todos os agentes da cadeia na mesma mesa”. Essa integração é fundamental para estruturar o setor.

Quando uma rota do vinho se consolida, ela impulsiona uma vasta rede de negócios. Hotéis, restaurantes, pousadas, agências de turismo e transportadoras são diretamente beneficiados.

Além disso, pequenos produtores rurais, bancos de fomento e companhias aéreas também entram na equação. O impacto se estende até a atividades que parecem distantes da viticultura, como lojas de artesanato e postos de gasolina.

Nepomuceno ressalta que “o prefeito enxerga uma parte. O produtor enxerga outra. A operadora de turismo, outra. Nosso papel é estruturar essa cadeia como um todo”. Essa visão holística é crucial para o sucesso.

Quem visita uma vinícola não busca apenas o vinho. O turista dorme na região, almoça em restaurantes locais, compra queijos, azeites, doces, cafés e artesanato, além de contratar passeios e abastecer o carro.

Essa movimentação gera renda para dezenas de negócios que, muitas vezes, nem produzem uma única garrafa. Segundo dados da ONU Turismo, cerca de 80% dos empregos gerados pelo enoturismo permanecem na própria comunidade.

Novos Horizontes: A Expansão do Enoturismo Pelo Brasil

Um dado interessante revela que a maior parte das viagens turísticas no mundo ocorre em um raio aproximado de 500 quilômetros da residência do viajante. Isso muda a forma de planejar o turismo no Brasil.

Há poucos anos, o enoturismo era quase sinônimo da Serra Gaúcha. Hoje, o cenário é muito mais diverso. Basta percorrer algumas horas de estrada para encontrar vinícolas em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Pernambuco, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

Esses novos projetos nascem próximos aos grandes centros consumidores. Eles ajudam a distribuir o fluxo turístico para além dos destinos tradicionais, criando novas oportunidades em diversas regiões do país.

Christian Burgos, publisher da revista ADEGA e um dos idealizadores do Fórum, acredita que este é o momento ideal para organizar esse crescimento. O enoturismo é uma peça chave para o desenvolvimento regional.

Ele afirmou que “o enoturismo representa hoje uma parte importante da estratégia de sustentabilidade das vinícolas”. Isso porque ele gera receita, fortalece a marca e fideliza consumidores.

Além disso, o enoturismo impulsiona o desenvolvimento das regiões produtoras, criando um ciclo virtuoso de crescimento econômico e social.

Do Vinho à Gastronomia: O Potencial das Rotas das Américas

O próprio Fórum de Enoturismo e Gastronomia das Américas já nasceu com uma ambição que vai além do vinho. A proposta inicial de discutir rotas vitivinícolas do Mercosul rapidamente se expandiu.

Surgiram novos temas e a ideia de pensar em rotas do café, conectando Brasil, Colômbia e Costa Rica. Ou ainda, rotas do azeite, dos queijos, do chocolate e do cacau.

Daniel Nepomuceno cita o Peru como um exemplo inspirador. Ao transformar sua gastronomia em um ativo turístico internacional, o país fez do ceviche um símbolo nacional capaz de atrair visitantes do mundo inteiro.

A ideia agora é aplicar essa mesma lógica aos territórios produtores das Américas. O objetivo é integrar vinho, gastronomia e identidade cultural, criando experiências turísticas ricas e autênticas.

O Fórum também marcará o lançamento do Guia ADEGA de Rotas de Vinhos das Américas. Esta publicação, produzida em parceria com a ONU Turismo, reunirá roteiros, vinícolas e experiências em diferentes países.

O guia será distribuído em português, espanhol e inglês, ampliando o alcance e a promoção das regiões produtoras de vinho e outros produtos gastronômicos nas Américas.

Obviamente, o vinho continua sendo o protagonista de toda essa movimentação. Contudo, ele já não viaja sozinho, carregando consigo uma vasta rede de possibilidades.

O que está em discussão, afinal, não é apenas turismo. É a capacidade que uma taça de vinho tem de movimentar uma economia inteira, transformando paisagens e vidas.

Como resumiu Daniel Nepomuceno, “uma vinícola nunca desenvolve apenas uma vinícola. Ela desenvolve todo o território ao seu redor”. Essa é a essência do enoturismo.

Não se trata apenas de uma viagem para conhecer vinhos, mas uma forma de transformar paisagens, gerar empregos, preservar identidades culturais e criar oportunidades para quem vive da terra.

No fim das contas, uma boa taça de vinho nunca conta apenas a história de um rótulo. Ela narra a história de um lugar inteiro, de sua gente e de seu potencial.


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