O renomado economista Paul Krugman, laureado com o Nobel de Economia em 2008, publicou um artigo incisivo nesta semana, levantando um alerta sobre as recentes tarifas impostas pelo governo Donald Trump ao Brasil. Segundo Krugman, essas medidas não apenas se mostrarão ineficazes, mas também terão o efeito inesperado de fortalecer a posição política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A análise do professor da Universidade da Cidade de Nova York aponta que a iniciativa de Trump é uma tentativa de penalizar o Brasil por suas inovações monetárias, especialmente o sucesso do PIX. Para Krugman, a ação americana reflete uma postura de oposição ao progresso e à democracia, com motivações que vão além da economia tradicional.
As tarifas, que entraram em vigor na última quarta-feira, são vistas pelo economista como um movimento equivocado que não atingirá seus objetivos. As informações foram divulgadas em artigo publicado no site Substack.
Estratégia Falha: Por Que as Tarifas Não Vão Funcionar?
Paul Krugman é categórico ao afirmar que usar as tarifas para punir o Brasil por suas conquistas monetárias não terá sucesso. Ele destaca que o alcance econômico dessas tarifas será limitado, mesmo ao considerar produtos importantes como café, suco de laranja e carne bovina, que são grandes exportações brasileiras para os Estados Unidos.
O economista questiona a lógica por trás da punição a um país que simplesmente oferece a seus cidadãos uma maneira melhor de fazer compras e pagar contas. Para ele, a hostilidade do governo Trump em relação ao PIX ilustra uma aversão ao progresso, especialmente quando este contraria os interesses de grupos poderosos.
Krugman compara a situação a uma empresa que perde clientes para um concorrente com um produto melhor e mais barato, questionando se isso deveria ser considerado uma prática comercial desleal. Ele usa o exemplo do serviço postal dos EUA, que oferece um serviço de entregas superior e mais acessível que outras empresas privadas, sugerindo que não faria sentido fechá-lo por isso.
O PIX como ‘Dinheiro do Futuro’ e o Medo do Progresso
Krugman, que há um ano já havia classificado o PIX como o ‘dinheiro do futuro’, reitera sua admiração pelo sistema de pagamentos brasileiro. Ele cita um relatório do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA, de 2022, que descreve o PIX como uma moeda digital do Banco Central do Brasil, análoga ao dinheiro de papel.
Para o Nobel de Economia, a tentativa de Trump de punir o Brasil pelo sucesso do PIX é uma demonstração de que este governo se opõe ao progresso. Ele argumenta que essa oposição ocorre sempre que o avanço contraria os interesses e a ideologia dos oligarcas que apoiam a campanha de Trump.
Além disso, Krugman sugere que a administração Trump tenta punir o Brasil por ser uma verdadeira democracia. Ele lembra que, ao contrário dos EUA, o Brasil processou seu ex-presidente, Jair Bolsonaro, por tentar fomentar uma revolta após perder a última eleição, um contraste significativo na arena democrática.
A Hegemonia do Dólar Ameaçada e o Euro Digital
Um dos pontos levantados por Krugman é a preocupação do governo Trump com o fato de o PIX e sistemas de pagamentos similares poderem desafiar a hegemonia internacional do dólar. No entanto, o economista minimiza o impacto do Brasil nesse cenário global.
Segundo Krugman, o Brasil é um ator pequeno demais para provocar impacto no sistema global de pagamentos. O verdadeiro desafio ao dólar, ele argumenta, pode vir se o Banco Central Europeu conseguir adotar um euro digital em 2029, como planejado. Ele prevê que, nesse cenário, um número significativo de transações antes feitas em dólar poderia migrar para euros digitais.
O economista questiona por que os EUA não oferecem um meio de pagamento igualmente bom, como um dólar digital. A resposta, segundo ele, não está na má ideia, pois o Brasil demonstrou seu sucesso, mas sim na existência de poderosos grupos de interesse que se opõem a qualquer iniciativa desse tipo nos Estados Unidos.
O Impacto Político e a ‘Guerra ao Futuro’
Na conclusão de seu artigo, Krugman reforça que a insensatez das novas tarifas não impedirá que elas aconteçam, mas seu efeito será limitado. Ele corrobora a visão da economista brasileira Monica de Bolle, que em entrevista à BBC News Brasil, avaliou que o impacto das tarifas de Trump deve ser restrito e que elas fortalecem a posição do governo brasileiro.
Krugman finaliza sua análise com uma crítica contundente à postura de Trump. Ele afirma que o presidente dos EUA declarou guerra ao futuro, nunca admitindo quando suas guerras fracassam, o que aponta para uma persistência em políticas que são, a seu ver, contraproducentes e retrógradas para o comércio e a inovação globais.

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