A Copa do Mundo que se encerra neste domingo (19) nos Estados Unidos demonstrou que os torcedores estão dispostos a desembolsar mais do que nunca para garantir um lugar no evento quadrienal. Os compradores de ingressos surpreenderam até os mais céticos, mesmo diante de preços considerados exorbitantes.
A final, que acontece no MetLife Stadium, é amplamente vista como o evento esportivo mais caro já realizado no país. Nela, a Argentina de Lionel Messi enfrenta a Espanha e sua jovem estrela Lamine Yamal, em um confronto que promete entrar para a história.
Este cenário de alta demanda por ingressos é o desfecho de um torneio que testou os limites da disposição dos fãs em gastar. A aposta da Fifa deu certo, superando preocupações iniciais com restrições de visto e agitação interna nos Estados Unidos, conforme análise da Reuters.
A Estratégia de Preços Dinâmicos da Fifa e a Demanda Recorde
A Fifa demonstrou uma habilidade notável em prever a demanda, já que as pessoas estavam pagando preços absurdos por praticamente todos os 104 jogos, segundo Scott Friedman, especialista em venda de ingressos com experiência no Cleveland Cavaliers. Friedman expressou surpresa, afirmando que, um ano atrás, não se imaginava que tantos viajariam com as discussões sobre o ICE e teorias da conspiração.
Para ele, a Fifa, para seu crédito, estabeleceu preços altos e os torcedores acabaram pagando, reafirmando a Copa do Mundo como o torneio mais popular do mundo. Uma análise da Reuters sobre os dados de público da Fifa revelou que mais da metade das 72 partidas da fase de grupos teve lotação máxima.
A maioria das partidas restantes ficou a apenas algumas centenas de torcedores de atingir a capacidade máxima. Cerca de 99,7% dos assentos disponíveis foram ocupados durante as partidas da fase preliminar, de acordo com a própria Fifa. Estes dados dissiparam as preocupações iniciais de que os preços altos afastariam os torcedores.
Preocupações surgiram após extensas áreas de assentos vazios serem observadas no Estádio de Guadalajara, em 11 de junho, durante o jogo entre Coreia do Sul e República Tcheca. Embora a Fifa tenha registrado uma presença de 44.985 pessoas em um estádio com capacidade para quase 46.000, os assentos vazios vistos por uma testemunha da Reuters pareciam confirmar os maiores temores dos críticos.
Com a expansão do torneio para o maior número de participantes de sua história, com 48 equipes envolvidas, o interesse dos fãs também cresceu exponencialmente. Os preços iniciais foram fixados em US$ 575 (cerca de R$ 2.942) por ingresso para os jogos da fase de grupos, mais que o dobro do ingresso mais caro disponível durante o torneio de 2022.
No entanto, o sistema de preços dinâmicos da Fifa fez com que muitos portadores de ingressos pagassem muito mais. Centenas de ingressos ainda estavam disponíveis para a final na quarta-feira (15), com preços pouco acima de US$ 7 mil (R$ 35.819) na plataforma da Fifa, um fato que gerou especulações sobre se a entidade havia ido longe demais com seus valores.
Scott Friedman, que dirige a ‘Ticket Talk Network’, explicou que esse lote de assentos provavelmente resultou de um processo conhecido como “venda controlada de ingressos”. Essa é uma prática comum em megaeventos, onde os organizadores restringem a disponibilidade para incentivar os compradores, criando uma sensação de escassez.
“Eles podem agir como se já tivessem vendido todos os ingressos e ir liberando-os aos poucos para, obviamente, aumentar a demanda do mercado”, disse Friedman. Ele complementou, explicando que isso leva o consumidor a pensar “Ah, só restam tantos ingressos disponíveis nessa seção, é melhor eu comprar agora”. Na sexta-feira (17), quase todos os ingressos pareciam estar vendidos, com alguns listados na plataforma da Fifa por cerca de US$ 32 mil (R$ 163.744) cada um.
O Impacto da Precificação Dinâmica e a Reação dos Fãs
Um processo opaco de “precificação dinâmica” também se mostrou uma vantagem para a Fifa, à medida que o esporte continua sua difícil evolução de um jogo da classe trabalhadora para um passatempo dos ricos. A Fifa introduziu, pela primeira vez neste torneio, preços dinâmicos, permitindo que os valores dos ingressos variassem com base na demanda em tempo real e em outros fatores.
Adam Elmachtoub, professor associado de engenharia industrial e pesquisa operacional da Universidade Columbia, destacou a falta de transparência. “Um dos motivos da frustração dos últimos meses é que ninguém sabe realmente como isso funciona”, afirmou Elmachtoub.
Ele reconheceu que as pessoas estão dispostas a aceitar preços dinâmicos, como acontece com passagens aéreas e até na compra de roupas, mas ressaltou que, “quando se trata de um evento de tamanha visibilidade, a transparência ajudará muito”.
Em resposta à reação negativa em relação aos preços, a Fifa introduziu um pequeno número de ingressos mais baratos. Políticos, incluindo o prefeito da cidade de Nova York, Zohran Mamdani, também pressionaram para que os moradores locais tivessem acesso a assentos a preços acessíveis, buscando maior inclusão.
Torneio de Alto Nível Impulsiona Demanda e o Mercado de Revenda
Um torneio de alta qualidade também impulsionou a demanda, com as quatro seleções mais bem classificadas nas semifinais pela primeira vez desde a criação do ranking. A final de domingo contou com Lionel Messi, de 39 anos, provavelmente em sua última partida de Copa do Mundo, adicionando um apelo emocional e histórico inegável.
“A noção de preço justo aqui é complexa, porque entretenimento não é uma necessidade”, ponderou Elmachtoub, refletindo sobre a natureza do consumo de eventos esportivos de grande porte. As regras frouxas em torno do mercado de revenda nos EUA só serviram para acelerar o esvaziamento dos bolsos dos torcedores durante o torneio.
Vendedores de ingressos de segunda mão foram amplamente autorizados a definir seus próprios preços, contrastando com as regras do México, um dos países anfitriões. Lá, os revendedores são proibidos de listar seus ingressos por um preço superior ao que pagaram, uma prática comum em grande parte do resto do mundo.
Uma enxurrada de anúncios na última semana fez com que os preços caíssem na plataforma de revenda SeatGeek, mas ainda assim os valores eram altíssimos. O ingresso médio para a final foi listado por mais de US$ 11.000 (R$ 56.287) na sexta-feira (17). Mesmo com essa queda, a final se tornou o evento mais caro já vendido na plataforma, 8% acima do Super Bowl de 2024, segundo a SeatGeek.
Chris Leyden, diretor sênior de marketing da SeatGeek, observou a dinâmica. “O que estamos vendo na Copa do Mundo deste ano é que a demanda flutua a cada rodada e a cada divulgação de confrontos”, disse Leyden. “O interesse por este torneio se manteve notavelmente bem desde a fase de grupos até as fases eliminatórias”, completou, ressaltando o sucesso de público.
Uma Copa do Mundo para Poucos? Críticas à Inclusão e Acessibilidade
Apesar do sucesso financeiro e de público, especialistas em direitos humanos alertaram que o torneio continuava fora do alcance de muitos fãs. Naquilo que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, havia prometido ser a Copa do Mundo mais inclusiva, torcedores de diversos países não conseguiram obter vistos, segundo a Sport & Rights Alliance.
Ronan Evain, diretor-executivo da Football Supporters Europe, criticou a acessibilidade do evento. “Foi uma Copa do Mundo para alguns poucos privilegiados”, disse Evain a repórteres. Ele exemplificou: “Aqueles que estão na Europa, noruegueses, escoceses, que têm poder aquisitivo suficiente para viajar aos EUA, não precisam de visto para entrar no país e podem pagar os preços exorbitantes das passagens”.

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