“`json
{
“title”: “Sonho de Casas na Itália Vira Pesadelo para Brasileiros, com Dívidas e Fraude Sob Investigação na Toscana”,
“subtitle”: “Dezenas de brasileiros, atraídos pela promessa de imóveis reformados a “custo zero” na Itália, enfrentam agora dívidas, obras paradas e uma investigação por fraude fiscal e falsidade ideológica que bloqueou milhões de euros.”,
“content_html”: “
A busca por uma nova vida e uma casa charmosa em vilarejos italianos, muitas vezes promovida como um investimento de baixo custo, transformou-se em um pesadelo para diversos brasileiros. O que parecia ser uma oportunidade única de adquirir imóveis na Toscana, com reformas garantidas pelo governo italiano via créditos fiscais, revelou-se um cenário de dívidas, aposentadorias perdidas e terrenos abandonados. Uma investigação na Procuradoria de Lucca, na Itália, apura se a empresa Sonho.it e associados cometeram fraude contra o Estado e os compradores.
Segundo a investigação italiana, mais de 10 milhões de euros em créditos fiscais foram obtidos de forma irregular entre 2021 e 2025, dos quais mais de 4 milhões de euros já foram bloqueados. Cinco pessoas, incluindo os sócios Douglas e Alberto, estão sendo investigadas. A assessoria da Sonho.it e Mole Aquae, contudo, informou que 6 milhões de euros já foram liberados e acreditam na liberação do restante.
Os 11 compradores ouvidos pela reportagem, que se sentem lesados, relatam um padrão de promessas não cumpridas, imóveis em ruínas e a ameaça de responderem fiscalmente por créditos que não beneficiaram suas obras, conforme informações divulgadas pelo UOL.
O Sonho Desfeito e a Investigação na Toscana
O empresário mineiro Paulo Mauro, de 65 anos, é um dos que tiveram o sonho transformado em frustração. Em 2021, ele pagou cerca de 55 mil euros (aproximadamente R$ 325 mil) por uma casa em Fabbriche di Vergemoli, na Toscana, e mais 30 mil euros (cerca de R$ 177 mil) em reformas extras. Tudo foi feito à distância, com uma procuração em nome de Douglas. Em 2024, ao visitar a prefeitura local, Mauro foi alertado pelo prefeito Michele Giannini de que havia caído em um golpe. Hoje, ele processa a construtora Guglietta Global, mas teme não ser ressarcido.
Danilo Guida, morador da Alemanha, comprou uma casa por 44 mil euros (R$ 260 mil) em 2022. Ele relata promessas de 150 trabalhadores e materiais chegando, mas a obra nunca avançou. Sua casa, segundo ele, é um “pedaço de pedra que não vale nada”, mas que ele tem a obrigação de manter. A reportagem visitou vários desses imóveis na Toscana, encontrando andaimes montados e entulhos ensacados, sem progresso nas obras. O advogado Eduardo Lorenzetti, que representa uma cliente com dois imóveis, afirma haver fortes indícios de fraude contra o Estado, pois os Superbonus teriam sido obtidos, mas não usados nas obras.
Superbonus 110: A Origem do Festival de Fraudes
A raiz do problema está no programa Superbonus 110, lançado pelo governo italiano em 2020 para estimular a economia pós-pandemia. Ele permitia que reformas estruturais para eficiência energética e proteção antissísmica fossem cobertas pelo Estado via créditos fiscais, que podiam ser cedidos a construtoras ou bancos. Sem mecanismos de monitoramento eficazes, o programa se tornou um “festival de fraudes”, com empreiteiras superfaturando obras e resgatando créditos fiscais indevidamente.
Um levantamento do Tribunal de Contas italiano em 2024 apontou que o Superbonus gerou um déficit orçamentário de 172 bilhões de euros, com cerca de 16 bilhões de euros em créditos considerados irregulares. A primeira-ministra Giorgia Meloni classificou a situação como a “maior fraude” já sofrida pelo Estado. A promessa de “custo zero” para as reformas via Superbonus, aliada ao apelo das “casas de 1 euro” e imóveis de baixo custo, atraiu muitos estrangeiros, incluindo brasileiros, para o mercado imobiliário italiano, que movimentou 5,5 bilhões de euros em 2025 com compradores estrangeiros, segundo Scenari Immobiliari.
O Esquema e as Consequências Fiscais para os Compradores
O método era repetitivo: um contrato prometendo a entrega completa do imóvel reformado, com acesso aos bônus, projeto e obra, mediante uma procuração que concedia a Douglas amplos poderes na Itália. Essa procuração era a peça central, pois dava acesso ao “cassetto fiscale”, a conta fiscal pessoal das vítimas na Receita italiana. Lá, os créditos do Superbonus eram solicitados e, em seguida, cedidos a terceiros, sem que as obras prometidas sequer começassem.
A procuradora Lucia Rugani explicou que muitos dos imóveis vendidos eram “ruínas isoladas no meio da mata”, inviáveis para os projetos apresentados. Ela destaca que os compradores desembolsaram dinheiro e ficaram com a dívida pendurada com o Estado, enquanto os fraudadores lucraram gerando e cedendo milhões em créditos fiscais. As empresas responsáveis pelas obras, como RYF, Consórcio Icaro e Guglietta Global, eram trocadas sem explicações, o que, segundo a procuradora, dificulta o rastreamento do dinheiro. Balanços analisados mostram saltos anômalos de faturamento, com a Mole Aquae Architettura passando de 570 mil para 5 milhões de euros em créditos em 2024, e a RYF de 1,9 milhão para 20 milhões de euros em 2023.
Um dos riscos mais graves para as vítimas é a responsabilidade fiscal. Ao assinarem a procuração, os compradores autorizaram Douglas a agir em seu nome junto à Receita Federal italiana. Conforme o prefeito Giannini, se os créditos fiscais foram gerados com base nessa procuração, a responsabilidade tributária recai sobre os titulares, ou seja, os próprios compradores. “Se a Receita deu os créditos porque você tinha dado a procuração, você responde por isso. O penal é pessoal. Isso é um tecnicismo, mas é grave”, explicou o prefeito.
O Lado dos Investigados e a Repercussão Local
Douglas, ex-dono de uma empresa de marketing esportivo no Brasil, conheceu Alberto Da Lio, arquiteto e advogado italiano com empresas no Brasil e réu em ações de construção civil, em 2019. Juntos, desenvolveram a Sonho.it, intermediando a compra e reforma de imóveis. Douglas e Alberto se negaram a comentar as acusações, alegando sigilo da investigação. Durante entrevista, o clima mudou e Alberto intimou a reportagem a apagar o áudio, encerrando a conversa abruptamente.
Em Fabbriche di Vergemoli e outras cidades, placas desbotadas da Sonho.it ainda adornam fachadas de casas de pedra vazias. O prefeito local estuda a possibilidade de comprar parte dos imóveis abandonados para moradia popular e prometeu que o município se constituirá como parte civil em um eventual processo. “O que me preocupa não é se os brasileiros voltarão a investir aqui. Me preocupo se consigo fazer algo por quem nos deu sua confiança e foi enganado no meu território”, afirmou o prefeito. O sonho de ter uma das casas na Itália, para muitos, não virou diamante, mas sim um grande problema.
“`

Deixe um comentário