A iminência de um El Niño intenso está impulsionando as concessionárias de saneamento no Brasil a reforçarem suas estratégias e investimentos. Com a previsão de eventos climáticos extremos mais frequentes e severos, as empresas do setor, como Aegea, Sabesp e Iguá Saneamento, estão apostando alto em tecnologia e resiliência. O objetivo é garantir o abastecimento de água, tratamento de esgoto e a gestão da drenagem urbana diante de cenários desafiadores.
As mudanças climáticas trazem consigo uma nova realidade, exigindo uma gestão hídrica mais inteligente e proativa. A regulação do setor também evolui, incorporando os riscos climáticos em novos contratos de concessão, visando fortalecer a capacidade das empresas de resposta. As informações são do R7, que detalhou a preparação das companhias para este cenário.
As regiões brasileiras sentirão os efeitos do El Niño de maneiras distintas, demandando abordagens adaptadas. Este cenário reforça a preparação do setor de saneamento para eventos climáticos extremos, que se torna um pilar fundamental para a segurança e bem-estar da população.
Impactos Regionais e a Necessidade de Monitoramento Constante
A previsão para o próximo ciclo do El Niño aponta para uma redução significativa das chuvas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, o que pode comprometer diretamente a disponibilidade hídrica. Por outro lado, o Sudeste e o Centro-Oeste deverão enfrentar temperaturas mais elevadas, resultando em um aumento considerável no consumo de água e, consequentemente, uma maior pressão sobre os sistemas de abastecimento.
Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, destaca que o El Niño ocorrerá em um contexto de temperaturas globais já elevadas. Ele ressalta a necessidade de um monitoramento permanente e uma gestão cada vez mais eficiente dos recursos hídricos. “Estamos vivenciando um novo normal. As empresas vão ter que utilizar muita inteligência para conseguir gerir um problema que veio para ficar”, afirma Nascimento.
Os impactos, contudo, não se limitam apenas à água e esgoto. Carlos Lebelein, sócio da LMDM Consultoria, alerta para a questão da drenagem. Segundo ele, o excesso de precipitações previsto para a região Sul tende a sobrecarregar os sistemas de drenagem urbana, ampliando o risco de enchentes e inundações que afetam milhões de pessoas.
Tecnologia e Inovação na Linha de Frente
Para enfrentar esses desafios, as concessionárias de saneamento estão investindo pesado em tecnologia. A Aegea, por exemplo, utiliza modelos de inteligência artificial que antecipam cenários com até seis meses de antecedência. Esses modelos cruzam dados sobre consumo de água, níveis de rios e previsões meteorológicas, permitindo um planejamento mais assertivo.
Renato Médicis, vice-presidente da Aegea para as regiões Norte e Nordeste, exemplifica o trabalho preventivo da empresa em Manaus. Durante a seca histórica de 2024, a Aegea reposicionou antecipadamente bombas de captação no Rio Negro. As projeções também guiaram investimentos em novos poços, reservatórios e na ampliação da oferta de água no Piauí e no Pará. “Trabalhamos sempre de forma preventiva, para não precisarmos atuar de maneira reativa”, destaca Médicis.
A Sabesp, por sua vez, aprendeu lições importantes com a crise hídrica de 2014 e 2015, a mais severa enfrentada pelo estado de São Paulo. Marco Antonio Lopez Barros, diretor de Produção e Tratamento da companhia, afirma que essa experiência foi incorporada ao DNA da Sabesp. Entre 2025 e 2030, a empresa prevê investir R$ 7,8 bilhões em segurança e resiliência hídrica, com foco no combate a perdas, uso de tecnologia para localizar vazamentos, instalação de hidrômetros inteligentes e distribuição de caixas d’água para famílias vulneráveis.
“Não considerar que hoje há alterações no clima em relação ao que tínhamos há 20 anos é fechar os olhos para os dados”, pondera Barros. Ele ressalta, no entanto, que conciliar os investimentos em resiliência climática com as metas de universalização do saneamento é um grande desafio, especialmente para empresas de menor porte.
Adaptação Climática e Planos de Contingência
A Iguá Saneamento também tem a adaptação climática como parte integrante de seu planejamento operacional. Desde 2022, a companhia desenvolve planos de segurança hídrica e de resiliência climática, além de operar centros de controle que monitoram, em tempo real, rios, reservatórios, vazões e tendências climáticas. O objetivo é antecipar riscos e preparar a empresa para cenários críticos.
Entre as iniciativas da Iguá estão a ampliação de reservatórios, a modernização dos sistemas de distribuição e a elaboração de planos de contingência para enfrentar eventos extremos. Paula Violante, diretora de Operações (COO), enfatiza a importância dessas ações. “Não temos como fazer chover, mas podemos melhorar o sistema para preparar a empresa para situações mais críticas”, explica Violante.
Evolução Regulatória e o Futuro do Saneamento
A regulação do setor de saneamento também está se adaptando à nova realidade climática, embora de forma mais gradual. Ana Cândida, sócia do BMA Advogados, observa que os contratos de concessão mais recentes passaram a abordar de forma mais específica os riscos climáticos. Um exemplo é o contrato de privatização da Sabesp, que prevê medidas preventivas para situações de escassez hídrica e estabelece regras para eventos climáticos extremos que excedam a capacidade de mitigação da concessionária.
Para a advogada, essa evolução regulatória acompanha uma transformação mais ampla no setor. “O desafio agora é adaptar a infraestrutura a um cenário em que secas, enchentes e ondas de calor tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade”, conclui. A preparação do setor de saneamento para eventos climáticos extremos é, portanto, um compromisso contínuo e multifacetado, essencial para a segurança hídrica e a qualidade de vida nas cidades brasileiras.

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