A Copa do Mundo, palco dos sonhos de milhões de torcedores, transformou-se em um desafio financeiro sem precedentes para quem deseja acompanhar a Seleção Brasileira de perto. Os custos para ver o Brasil em campo atingiram valores exorbitantes, colocando em xeque a acessibilidade do evento.

Nesta que já é considerada a Copa mais cara da história, os preços dos ingressos para os jogos da seleção variam de forma alarmante, dificultando a participação do torcedor comum e gerando um debate intenso sobre o futuro do futebol e sua relação com o público.

A situação é complexa e envolve desde o mercado paralelo de cambistas até um novo sistema de revenda oficial da FIFA, que tem sido alvo de críticas. Detalhes sobre esses valores e as dinâmicas do mercado foram revelados pela Folha.

A Escalada dos Preços: Quanto Custa Ver o Brasil?

Para assistir a um jogo da Seleção Brasileira nesta Copa, o torcedor pode desembolsar entre R$ 4.000 e R$ 14 mil. Essa estimativa, baseada na análise de milhares de ofertas de compra e venda em grupos de WhatsApp, conforme acompanhado pela Folha, revela a dimensão dos valores.

Os preços oscilaram, por exemplo, de US$ 800 (cerca de R$ 4,2 mil) para um jogo como Brasil x Haiti, até US$ 2.700 (aproximadamente R$ 14 mil) para Brasil x Noruega. Estes valores consideram as quatro categorias de ingressos da FIFA, excluindo os ainda mais caros camarotes.

A pesquisa da Folha, que analisou 1.428 ofertas, mostra que comprar com antecedência ou muito perto da hora do jogo pode resultar em preços menores. Em média, entre as partidas já disputadas, Brasil x Escócia foi a mais cara, possivelmente devido à grande comunidade brasileira em Miami, onde ocorreu.

Os ingressos da Copa atual para jogos menos importantes estão sendo cotados a valores que, em edições anteriores, eram reservados apenas para a grande final. Em 2022, no Qatar, a decisão entre Argentina e França tinha ingressos de cambistas por US$ 2.500 (R$ 13 mil em valores atuais), um patamar agora comum para fases iniciais.

“É uma Copa pelo menos umas oito vezes mais cara que a do Qatar, que já foi bem cara”, queixa-se um torcedor brasileiro veterano, acostumado a acompanhar Mundiais e a negociar com cambistas.

A Polêmica da Precificação Dinâmica da FIFA

Historicamente, os grupos de WhatsApp para negociação de ingressos são antigos, mas nesta Copa, os cambistas enfrentam uma concorrência inesperada: a própria FIFA. A entidade adotou a “precificação dinâmica”, permitindo a revenda de ingressos em seu site pelo preço que o vendedor desejar, algo inédito.

Em Copas anteriores, a revenda era limitada ao valor original do bilhete. Agora, a Folha encontrou no site da FIFA ingressos para Brasil x Noruega a partir de US$ 2.012,50 (cerca de R$ 10,5 mil), um ágio de 674% sobre o valor de face original de US$ 260. Para a final, o ingresso mais barato estava em US$ 12.966,48 (R$ 67 mil), com ágio de 548%.

A FIFA ainda embolsa 15% de comissão sobre cada venda. Um torcedor brasileiro ouvido pela Folha comparou a atuação da FIFA à de sites de venda e revenda de ingressos para shows, operando como um “cambista oficial” e elevando ainda mais os preços da Copa.

Essa nova dinâmica tem impactado até mesmo os cambistas tradicionais. Um deles, de Minas Gerais, relatou à Folha: “A loucura que está isso aí é fora do comum. US$ 2.000, US$ 3.000, ninguém conseguiu comprar nada”, evidenciando a dificuldade de adquirir ingressos a preços mais acessíveis.

Riscos e Dificuldades para o Torcedor Comum

Além dos preços exorbitantes, os torcedores brasileiros que recorrem ao mercado paralelo enfrentam o risco constante de golpes. Nos grupos de WhatsApp, denúncias de contas que não entregam os ingressos são frequentes, com usuários compartilhando informações para identificar supostos vigaristas.

Apesar dos desafios, alguns torcedores mais experientes afirmam que, com “sangue-frio”, é possível conseguir ingressos na porta do estádio por cerca de US$ 200 (aproximadamente R$ 1.040). Outros buscam entradas por meio de cortesias de cartolas e patrocinadores, prática teoricamente proibida.

As queixas sobre a elitização do Mundial são crescentes. Nos grupos, muitos atribuem a esse fator o comportamento “apático” da torcida brasileira nas arquibancadas. “É uma Copa para ricos mesmo. Torcedor comum não tem como assistir”, lamenta o torcedor veterano, sintetizando o sentimento de exclusão.

A Defesa da FIFA e o Futuro do Futebol

Procurada, a FIFA se manifestou remetendo a comunicados anteriores à Copa. A entidade afirmou ter o compromisso de “garantir acesso justo aos torcedores” e que ofereceu ingressos para a fase de grupos a partir de apenas US$ 60, um valor significativamente menor do que os praticados no mercado secundário.

A FIFA também justificou seu sistema, alinhado com os “padrões da indústria nos setores de esportes e entretenimento na América do Norte”, e ressaltou que o valor arrecadado é totalmente reinvestido nas 211 federações associadas, buscando o desenvolvimento do futebol globalmente.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, foi direto na coletiva de abertura da Copa: “Se você vende a um preço muito menor, [os ingressos] teriam ido parar em mercados secundários a preços muito, muito, muito mais altos, e o dinheiro iria para quem organiza esses mercados, e não para o futebol.”

Ainda assim, a discussão sobre a acessibilidade dos ingressos da Copa e o impacto dos altos custos na experiência do torcedor permanece intensa, levantando questões importantes sobre o equilíbrio entre o faturamento e a paixão popular pelo esporte mais amado do mundo.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *