A paixão fervorosa dos torcedores de Bangladesh pela seleção brasileira de futebol é um fenômeno que intriga e encanta o mundo. Longe do Brasil, em um país com uma cultura tão distinta, o apoio vibrante e constante ao time canarinho tem raízes profundas, que remontam à própria fundação da nação bengali.

Essa conexão duradoura, que se manifesta em cada Copa do Mundo, não surgiu por acaso. Sua origem está ligada a uma iniciativa governamental e a um nome que transcende o esporte: Pelé, o Rei do Futebol.

A história de como um livro didático com a história de Pelé se tornou um pilar dessa devoção é fascinante, conforme informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, com relatos do embaixador do Brasil em Bangladesh, Paulo Fernando Dias Feres.

A Gênese da Paixão: Pelé e a Independência de Bangladesh

O auge da fama de Pelé e da seleção brasileira, após a conquista do tricampeonato mundial em 1970, coincidiu com um momento crucial para Bangladesh, a guerra de independência em 1971. Nesse período de formação de uma nova identidade nacional, o futebol já desempenhava um papel importante, inclusive com a criação de uma seleção chamada Swadhin Bangla, que disputou amistosos na Índia para chamar atenção para a causa da libertação.

Ainda na década de 1970, o governo de Sheikh Mujibur Rahman, líder da libertação e então premiê e presidente do país, tomou uma decisão que marcaria gerações. Ele incluiu como leitura obrigatória nas escolas bengalis um livro didático com a história de Pelé, o craque do Santos e da seleção brasileira.

O embaixador Paulo Fernando Dias Feres contou à Folha que a ex-embaixadora de Bangladesh no Brasil, Sadia Faizunesa, confirmou ter lido a biografia de Pelé na escola. Além disso, há inúmeros relatos de bangladeses que afirmam ter começado a torcer pelo Brasil após essa leitura, evidenciando o impacto cultural da iniciativa.

O Livro Didático: De ‘Kalo Manik’ à Lenda

Jornais bengaleses também mencionaram esse fato histórico. Quando Pelé faleceu em dezembro de 2022, o Daily Star relembrou o episódio, referindo-se a um “capítulo de um livro do ensino fundamental que apresenta as conquistas do brasileiro”. Esse livro apresentou Pelé a milhões de crianças, solidificando sua imagem como um herói.

Muitos em Bangladesh ainda conhecem Pelé pelo apelido carinhoso de “Kalo Manik”, que significa “pérola negra”, uma referência que supostamente estava no título do conto biográfico sobre o craque. Essa narrativa, descrita em reportagens locais, contava a fábula de um garoto pobre do interior do Brasil, que chegou a engraxar sapatos para ajudar a família, e sua ascensão para se tornar o maior jogador do mundo.

Feres menciona ter ouvido que a história de Pelé incluída na grade curricular bengali poderia ser um trecho traduzido de “Viagem em Torno de Pelé”, uma biografia romanceada escrita pelo jornalista Mário Filho com a colaboração do jogador. Embora a hipótese não tenha sido confirmada, a narrativa de que Mujib mandou traduzir a biografia e que muitos a leram é a que prevalece no país.

Um Legado Que Une Gerações e Desafia Rivais

A paixão por uma seleção brasileira enraizada em Bangladesh foi algo impulsionado em um momento mágico do passado, não surgiu do nada, como enfatiza o embaixador Feres. “Essa paixão, que passou de pai para filho, começou em algum momento mágico do passado, não caiu do céu sobre um país que, ao ficar independente, tinha US$ 2 em suas reservas. Alguém impulsionou essa identidade. Pode ter sido Mujib, pode ter sido um conjunto de pessoas, isso não importa. O que importa é que a identidade existe”, disse ele.

Com o tempo, outras “identidades” futebolísticas surgiram, como a com a Argentina, mas Feres aponta uma diferença crucial: “No caso do Brasil, eles torcem pela seleção; no da Argentina, pelo Lionel Messi. Não é ufanismo, eles admitem esse fato. Não se vê multidões jubilosas de torcedores argentinos pelas ruas, como se vê de torcedores brasileiros”.

Para o jornalista Asmaul Mottakin Sarker, as gerações mais velhas continuam a idolatrar Pelé, enquanto as mais novas se apaixonaram pela seleção na Copa de 2002, com as atuações brilhantes de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, e mais tarde de Kaká. Neymar, por sua vez, manteve viva essa paixão junto à geração atual.

No entanto, é o nome de Pelé que une todas as gerações. “Para os fãs de futebol em Bangladesh, ele permanece como a figura máxima, simbolizando a identidade, o legado e a paixão do Brasil”, concluiu Sarker, destacando o impacto duradouro do livro didático com a história de Pelé na formação dessa singular paixão nacional.


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