Muitos brasileiros vivem com a tranquilidade de que o país está a salvo de grandes terremotos, uma vez que se localiza no centro de uma placa tectônica, longe das áreas de encontro onde esses fenômenos são mais comuns.
Contudo, essa percepção de segurança não se aplica igualmente a todas as regiões. Existe uma parte do Brasil onde o risco de abalos sísmicos é significativamente maior: o Nordeste.
Essa particularidade geológica, que torna a região mais vulnerável a terremotos, é explicada por uma combinação de fatores, incluindo uma crosta terrestre mais delgada e uma profusão de falhas antigas, conforme detalhado em reportagem da BBC News Brasil.
A Crosta Terrestre Mais Fina: O Segredo Sob o Nordeste
Sob boa parte dos estados nordestinos, a crosta terrestre apresenta uma característica peculiar: ela é mais fina do que a média global. Especialistas usam a metáfora de um queijo derretido que, ao ser puxado, fica mais ralo no meio para explicar esse fenômeno na chamada Província Borborema.
Em estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, a crosta terrestre tem entre 30 e 35 quilômetros de espessura, em alguns pontos, até menos. Isso contrasta com a média mundial, que ultrapassa os 40 quilômetros, e chega a 70 quilômetros na região do Himalaia.
Acredita-se que essa condição tenha origem no período Cretáceo, entre 136 milhões e 65 milhões de anos atrás. Durante a separação dos continentes que hoje conhecemos como África e América do Sul, a crosta na região do Nordeste se esticou mais do que o restante, em um processo de acomodação das placas.
O resultado foi um adelgaçamento atípico, conhecido como efeito de estiramento. O engenheiro de estruturas Marcelo Bianco, professor da Universidade de São Paulo (USP), explica que essa é uma região que sofreu um processo de estiramento com a abertura do Oceano Atlântico na formação dos continentes.
Aderson Farias do Nascimento, geofísico e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), complementa que, em regiões assim, muitas vezes há o acúmulo facilitado de forças que podem desencadear terremotos, aumentando o risco de terremotos.
A Dança das Placas: Como as Tensões Chegam ao Interior do Brasil
Para entender a dinâmica das placas tectônicas, podemos imaginá-las como pessoas amontoadas em um vagão de transporte público. Quando uma se move, as outras precisam se ajustar, gerando tensão constante e atritos que, eventualmente, se manifestam como terremotos.
As tensões são maiores nas bordas das grandes placas tectônicas, onde esses imensos volumes de rocha se encontram e buscam acomodar suas fronteiras. O Brasil, por estar todo dentro da Placa Sul-Americana, é considerado privilegiado e relativamente protegido.
Contudo, Nascimento explica que a formação geológica do Nordeste, com rochas muito antigas, favorece a percepção dos tremores. “Funciona como um excelente meio para as ondas sísmicas viajarem”, afirma, “há uma eficiência muito boa em transmissão da energia sísmica.”
As tensões que chegam ao centro da Placa Sul-Americana vêm de todas as direções. A leste, a força é provocada pela dorsal meso-oceânica, uma cordilheira submarina formada pelo afastamento das placas no Atlântico, gerando um componente de compressão, detalha o geólogo Marco Moraes, autor do livro Planeta Hostil.
A oeste, a força vem dos Andes, onde a placa sul-americana é empurrada pela Placa de Nazca. “A tensão é dispersa em grandes áreas, mas de tempos em tempos ocorrem acomodações em falhas”, explica Moraes sobre os movimentos que podem levar a um terremoto.
Falhas Geológicas: O Que Causou o Terremoto de João Câmara?
Enquanto a maior parte do território brasileiro não apresenta riscos sísmicos elevados, um mapa da organização Global Seismic Hazard Assessment Program (GSHAP) classifica a “esquina” nordeste do país como de risco moderado a alto. Isso se deve à grande quantidade de falhas geológicas na Província Borborema.
A maior dessas falhas é a Samambaia, localizada no Rio Grande do Norte. Há 40 anos, em novembro de 1986, o município de João Câmara, a 82 quilômetros de Natal, registrou um abalo sísmico assustador de magnitude 5,1 pontos, causando pânico e destruição.
“Foi um terremoto fraco, mas o suficiente para derrubar casas pequenas”, pontua Marcelo Bianco. Cerca de 4 mil casas foram destruídas ou danificadas, e 10 mil pessoas ficaram desabrigadas, com muitos fugindo da cidade, segundo relatos da imprensa na época.
A espessura da crosta na região é um dos fatores que favorece a formação de falhas geológicas, mesmo não sendo uma área na borda de placa tectônica. “Em razão do estiramento, temos umas regiões mais frágeis do que outras aqui no Nordeste”, pontua Nascimento.
Ele acrescenta que “há falhas e fraturas, condições favoráveis de deslocamentos”. Além disso, a atividade sísmica ocorre porque o material da crosta dali tem, em sua história geológica, um acúmulo de falhas já em sua formação, pontos menos assentados pelo “empurra-empurra” entre as placas.
No caso do sismo de João Câmara, acredita-se que a falha responsável já existia há milhões de anos, mas estava “quietinha”. As tensões absorvidas pela Placa Sul-Americana, em dado momento, estouraram ali, reativando a falha.
“A placa mais delgada é um dos fatores para mais tremores. Mas existem ali também falhas antigas que são, de tempos em tempos, reativadas por conta da tensão intraplaca”, contextualiza Marco Moraes. As falhas geológicas são como fraturas da crosta, causadas pelos deslocamentos dos blocos rochosos.
Descobertas Científicas: O Estudo que Revelou a Fragilidade da Borborema
Um estudo abrangente realizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos Tectônicos, entre o final de 2009 e meados da década passada, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), esmiuçou a geologia da Borborema.
O geofísico Aderson Farias do Nascimento foi um dos participantes da pesquisa, que concluiu que a espessura da crosta no Nordeste é de fato mais fina. Para isso, os pesquisadores realizaram uma série de explosões próximas à superfície e usaram sismógrafos para medir a propagação das ondas de choque no interior da Terra.
As ondas sísmicas são refletidas e refratadas, mudando de velocidade conforme as diferenças físicas entre os materiais da crosta, especialmente entre a crosta e o manto. Dezenas de poços de 45 metros de profundidade foram feitos e explosivos em gel instalados, com sismógrafos distribuídos para medição.
Os cálculos confirmaram não apenas a crosta delgada da região, mas também a diversidade de materiais rochosos em sua composição. Essa heterogeneidade é outro componente que pode explicar o grande número de falhas, já que a falta de homogeneidade dificulta a acomodação dos materiais.
“A Província de Borborema é muito heterogênea do ponto de vista geológico. São terrenos diferentes, muita rocha metamórfica, muitas falhas antigas… É diferente de outras regiões que são mais estáveis”, afirma o geólogo Marco Moraes, reforçando a complexidade que contribui para o risco de terremoto na região.

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