O fenômeno El Niño 2026/2027 promete trazer desafios significativos para a agropecuária brasileira, com previsões de déficit hídrico em algumas regiões e excesso de chuvas em outras. Diante deste cenário, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, emitiu um alerta crucial para os produtores rurais de todo o país.

A antecipação de decisões é a chave para mitigar os impactos. A Embrapa enfatiza a importância de planejar o plantio, o manejo da água e a conservação do solo, adotando estratégias adaptadas às particularidades de cada uma das cinco regiões brasileiras.

Essas recomendações fazem parte de um vasto trabalho que inclui 163 medidas, elaborado no âmbito do Grupo de Trabalho sobre o El Niño, criado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, conforme informações divulgadas pela Embrapa.

Estratégias Nacionais: Zarc e Planejamento Antecipado

Para todo o território nacional, a Embrapa destaca medidas fundamentais. Entre elas, o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), a escolha de cultivares adaptadas às condições climáticas esperadas e o escalonamento da semeadura. Tais ações são vitais para reduzir os riscos.

O planejamento de reservas de água e forragem também figura como prioridade. A instituição recomenda ainda o acompanhamento contínuo das previsões climáticas, utilizando informações oficiais, e a manutenção de estruturas de água, solo e alimentação animal sempre preparadas.

Centro-Oeste e Nordeste: Combate à Seca e Reserva Hídrica

No Centro-Oeste, estados como Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal enfrentarão o principal risco de falta de chuva. A Embrapa prevê atraso e irregularidade nas precipitações da primavera, seguidos por chuvas abaixo da média, veranicos e ondas de calor no verão, com o período mais crítico entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Para soja e milho, é crucial seguir as janelas de plantio do Zarc, optar por cultivares com melhor desempenho sob seca e calor, escalonar a semeadura e manter a cobertura do solo. Em caso de atraso na soja, o milho segunda safra pode ser substituído por sorgo ou milheto, culturas de menor custo e risco.

No algodão, a orientação é evitar a semeadura tardia e priorizar cultivares mais precoces. Para a pecuária, ajustar a lotação dos animais à capacidade das pastagens, manter reservas de forragem e garantir acesso a água e sombra são medidas essenciais para enfrentar o El Niño.

No Semiárido Nordestino, a formação antecipada de reservas é a estratégia central. A região deve ter chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas no último quadrimestre de 2026, elevando o risco de déficit hídrico, ondas de calor e queimadas, com os maiores impactos esperados no início de 2027.

A Embrapa recomenda ampliar a captação e o armazenamento de água, com soluções como cisternas, barreiros-trincheira, barragens subterrâneas e sistemas de reuso. Nas lavouras, seguir o Zarc, escolher espécies adaptadas e escalonar as atividades são cruciais, sendo o sorgo uma alternativa para áreas de maior risco para o milho.

Na pecuária nordestina, formar reservas de forragem, manter bancos de palma-forrageira e ajustar a quantidade de animais à capacidade de suporte da propriedade são passos indispensáveis para a resiliência frente ao El Niño.

Norte e Sudeste: Desafios Hídricos e Manejo Adaptado

A Região Norte, segundo a Embrapa, enfrentará redução e maior irregularidade das chuvas, temperaturas elevadas e queda nos níveis dos rios. Os efeitos podem se intensificar entre o final de 2026 e o início de 2027, impactando não só a produção agropecuária, mas também navegação, transporte e abastecimento.

Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima tendem a concentrar os déficits hídricos mais severos. Em Roraima, onde o problema já está avançado, a Embrapa estima perdas de 30% a 50% na safra de 2026. A queda do nível dos rios pode afetar o transporte de insumos e alimentos, além do abastecimento de água.

No Amazonas, há riscos para a agricultura de várzea, pesca e aquicultura. Pará e Amapá podem sofrer com a intrusão salina em canais de captação, devido à redução da água doce. A orientação geral é priorizar a disponibilidade de água, com cultivares adaptadas, conservação da umidade do solo, armazenamento e irrigação localizada.

No Sudeste, o cenário é heterogêneo. São Paulo, Rio de Janeiro e o centro-sul de Minas Gerais podem ter chuvas acima da média entre outubro e dezembro, enquanto o norte de Minas, norte do Espírito Santo e norte fluminense tendem a condições mais secas. As temperaturas, contudo, devem ficar acima da média em toda a região.

Para o café, a Embrapa recomenda atenção especial às fases de floração e enchimento dos grãos, no final de 2026 e início de 2027. É fundamental conservar a umidade do solo e adotar práticas que aumentem a capacidade das lavouras de enfrentar o déficit hídrico e o calor, conforme o El Niño avança.

Para soja e milho, a instituição recomenda seguir as janelas do Zarc e utilizar tecnologias voltadas à tolerância ao estresse hídrico, como o Sistema Antecipe Soja-Milho, que pode adiantar em até 20 dias a implantação da cultura, otimizando o manejo.

Sul do Brasil: Preparação para Excesso de Chuvas

Diferentemente das outras regiões, o Sul do Brasil deve se preparar para chuvas mais intensas e concentradas, principalmente entre setembro e dezembro. O risco é de encharcamento, erosão, perda de nutrientes e dificuldades para operações agrícolas, um cenário distinto do El Niño em outras áreas.

Para trigo e outros cereais de inverno, a Embrapa recomenda cultivares mais resistentes a doenças e ao acamamento, escalonamento da semeadura e planejamento antecipado da colheita, secagem e armazenamento, para minimizar os impactos do excesso de umidade.

Em soja e milho, o produtor deve manter o solo protegido, adequar a densidade de semeadura, monitorar doenças e garantir uma drenagem superficial eficiente. No milho, o parcelamento da adubação nitrogenada pode ser crucial para reduzir as perdas de nutrientes por lixiviação.

A Embrapa também salienta que o planejamento deve considerar a microbacia hidrográfica. Essa abordagem é vital para controlar o escoamento da água e aumentar a capacidade de enfrentamento de eventos extremos, preparando o agro para o El Niño.


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