O Rastro de Destruição Deixado pelas Apostas Online

A história de Joana, que passou 41 dias internada em uma clínica especializada para tratar sua dependência em apostas, é um exemplo extremo de uma realidade que assola milhões de brasileiros. Sua jornada de recuperação, marcada por um ano e meio sem jogar, reflete a dura batalha contra um vício invisível que se infiltrou em lares de todas as classes sociais.

Desde 25 de setembro, uma medida provisória proibiu a exploração, oferta e publicidade de apostas esportivas e jogos online de quota fixa no Brasil. A decisão visa conter o preocupante endividamento em massa da população, um problema que cresceu exponencialmente nos últimos anos.

No entanto, a proibição das bets legais não tem o poder de apagar o rastro de endividamento, o colapso familiar e o adoecimento mental já causados. A busca por ajuda, como mostram os dados, é crescente, conforme informações apuradas pelo UOL.

Quando Parar Não Basta: A Luta nos Jogadores Anônimos

Para aqueles que cruzaram a linha do entretenimento, a proibição pode remover as plataformas autorizadas, mas não o desejo de apostar nem a dependência. Joana, após a internação, encontrou apoio nos Jogadores Anônimos (JA), um programa de recuperação baseado em 12 passos, semelhante ao Alcoólicos Anônimos.

As reuniões do JA são gratuitas e sigilosas, oferecendo um espaço para os participantes compartilharem suas experiências, dificuldades e estratégias para se manterem longe das apostas. O UOL acompanhou algumas dessas reuniões em São Paulo, onde a regra “Quem você vê aqui, o que você ouve aqui, quando você sair daqui, deixe que fique aqui” garante a privacidade.

A proibição recente das bets não esvaziou as salas de reunião. Genivaldo, de 34 anos, compartilha a noite em que percebeu que o dinheiro das apostas já não era mais seu. Em 2022, após ver um colega ganhar R$ 1.000 em poucas horas no jogo do Tigrinho, ele começou a apostar com R$ 10, depois mais R$ 30 e fechou a noite com um ganho de R$ 300, mas não sacou.

“Agora eu sei que estava com problema desde o início, porque continuei jogando para tentar fazer mais dinheiro”, relata. Hoje, Genivaldo compromete quase todo o seu salário, cerca de R$ 3.000, para pagar as dívidas contraídas devido às apostas. A lembrança mais dolorosa, contudo, é ter pego dinheiro emprestado da mãe aposentada e não ter cumprido a promessa de pagar.

O Custo Humano das Apostas: Dívidas, Ausência e Perda de Qualidade de Vida

Um dossiê produzido pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e publicado em dezembro de 2025 revelou que o vício em apostas online custou ao Brasil R$ 38,8 bilhões. Deste montante, R$ 30 bilhões estavam diretamente relacionados à perda de qualidade de vida, depressão e tratamentos médicos.

Bruna, uma vendedora de 31 anos e mãe de um adolescente, é outro exemplo. Ela chegou a colocar o salário inteiro, cerca de R$ 2.000, em jogos como o do ratinho e da caveirinha, variações do Tigrinho. Pegava dinheiro emprestado para continuar apostando e estima ter deixado cerca de R$ 80 mil no jogo, mas as perdas foram além do financeiro.

Enquanto apostava, Bruna sentia que se desprendia da realidade. Mesmo quando o filho de 15 anos estava em casa, ela não conseguia estar verdadeiramente presente. A tela do celular ocupava o espaço que deveria ser preenchido pela conversa, pela atenção e pela convivência familiar.

O jogo, para muitos, começa como uma tentativa de ganhar dinheiro, mas gradualmente reorganiza a vida da pessoa ao seu redor, transformando-se em uma obsessão que consome tempo, recursos e relações.

A Proibição e o Cenário das Bets no Brasil: Um Combate Necessário, Mas Insuficiente

Até agosto, pouco antes do veto federal, mais de 1,3 milhão de brasileiros haviam solicitado a autoexclusão de seus CPFs na plataforma gov.br, conforme o Ministério da Justiça. Essa ferramenta permitia bloquear o acesso às bets por um período ou por tempo indeterminado.

As apostas se tornaram facilmente acessíveis, exigindo apenas um celular e conexão à internet, que se tornou a principal porta de entrada. Cerca de 98,7% dos acessos às plataformas ocorriam por dispositivos móveis. Homens predominavam nas apostas esportivas, enquanto mulheres tinham maior participação em modalidades como cassino e bingo, embora já representassem quase 40% dos apostadores esportivos no Brasil.

O mercado ilegal é uma das grandes incertezas da nova fase. Estimativas do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável indicam que as bets ilegais respondiam por cerca de 40% do mercado antes da proibição, embora esse dado seja uma estimativa do próprio setor e deve ser lido com essa ressalva.

A medida provisória estabeleceu que os sites autorizados e clandestinos de apostas devem sair completamente do ar a partir de 6 de outubro. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, em força-tarefa com o Ministério da Fazenda, solicitou a derrubada de 10.435 sites que exploram apostas ilegais e a remoção de 186 aplicativos de jogo nas lojas da Apple e do Google, além da exclusão de 300 páginas do Facebook e 90 perfis de Instagram usados na divulgação ilegal.

Ludopatia: Uma Doença que Exige Tratamento e Apoio

O transtorno do jogo, conhecido como ludopatia, é reconhecido como uma condição de saúde mental pela OMS (Organização Mundial da Saúde). No SUS, entre janeiro de 2018 e maio de 2025, foram registrados 10.553 atendimentos relacionados aos códigos F63.0 e Z72.6, que tratam do tema.

O Ministério da Saúde apontou um crescimento de mais de 1.100% na procura por esses atendimentos entre 2018 e 2024, mas ressalta a subnotificação, já que os problemas do jogo frequentemente se associam a outros transtornos mentais. A psiquiatra Camila Espinola explica que o vício em jogos é a ponta do iceberg, sendo necessário identificar e tratar a doença de base, que pode estar ligada a transtornos bipolares e TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade).

A busca por grupos de apoio é fundamental, mas não elimina a necessidade de tratamento profissional. O neurologista Wuilker Knoner Campos esclarece que a dependência afeta os circuitos cerebrais de recompensa e controle de impulsos. “O cérebro passa a dar um valor exagerado à aposta e perde a eficiência em frear esses impulsos”, não se tratando simplesmente de uma questão de força de vontade.

A recuperação é possível, segundo o especialista. Durante o tratamento, a chamada neuroplasticidade permite modificar associações entre gatilhos e comportamento. A ideia é enfraquecer a ligação automática entre determinada situação e a necessidade de apostar. Dados do Ambulatório do Jogo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, pioneiro no tratamento da ludopatia no Brasil, mostram que 80% das pessoas que buscam o serviço já apresentaram ideação suicida em decorrência do colapso provocado pelo vício.

Atualmente, cerca de 65% das pessoas que buscam tratamento no ambulatório do HC-USP são motivadas especificamente pela dependência em apostas online. Para quem nunca desenvolveu a dependência, a saída das plataformas pode significar o fim de um aplicativo ou de uma rotina de entretenimento. Para aqueles que perderam o controle, as consequências são profundas e duradouras.

Joana precisou construir barreiras muito antes da proibição. Genivaldo ainda compartilha sua história nas salas dos Jogadores Anônimos. Bruna tenta recuperar o tempo em que não conseguiu estar presente para o filho. As plataformas podem ter saído da tela por força de lei, mas o desejo de apostar, as dívidas acumuladas e as profundas cicatrizes deixadas por anos de jogo não desaparecem com o sinal da internet. Do lado de fora, o mundo das apostas muda suas regras, mas dentro das salas de apoio, a batalha pela recuperação continua exatamente a mesma.


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