O bilionário nigeriano Aliko Dangote, o homem mais rico da África, e o Presidente do Quênia, William Ruto, lançaram oficialmente a pedra fundamental para uma refinaria de petróleo de US$16 bilhões, o equivalente a cerca de 12 bilhões de libras, na costa norte de Lamu, Quênia.
Este projeto monumental, que se tornará a maior refinaria de petróleo da África Oriental, promete processar 700.000 barris de petróleo bruto por dia, marcando um novo capítulo na jornada industrial do continente.
No entanto, o lançamento não foi sem controvérsias. A iniciativa ocorre em meio a protestos de moradores locais que demandam maiores compensações pelas terras utilizadas para a construção da refinaria, além de levantarem sérias preocupações ambientais, conforme informações divulgadas pela BBC Focus on Africa, BBC Swahili e Reuters.
O Gigante Projeto e as Controvérsias Locais
A refinaria de petróleo em Lamu é projetada para ser um marco industrial, com capacidade para processar impressionantes 700.000 barris de petróleo bruto diariamente. A expectativa é que esteja pronta até 2030, tornando-se o maior projeto industrial da África Oriental em termos de capacidade.
Antes mesmo do lançamento, alguns moradores locais foram às ruas para exigir mais compensação pelas terras desapropriadas para a refinaria. Em entrevista à BBC, Dangote minimizou os protestos, descrevendo-os como “jogos” de “marketers locais e players internacionais”, insistindo que o projeto seguirá conforme o planejado.
Dangote afirmou que a empresa utilizou apenas a porção de terra necessária que o governo disponibilizou. Ele questionou: “Vir e dizer que algumas pessoas estão manifestando, manifestando sobre o quê? Você já viu pessoas se manifestando contra si mesmas em termos de desenvolvimento?”
As preocupações não se limitam apenas à compensação de terras. Walid Ali, cofundador do grupo de campanha Save Lamu, expressou à BBC sua apreensão com o impacto ambiental que o projeto pode causar na comunidade local.
“Estamos pedindo os resultados da avaliação de impacto ambiental para que possamos ver quais medidas de mitigação estão sendo propostas”, disse Ali, acrescentando que “este não é o primeiro projeto onde vimos preocupações ambientais serem negligenciadas”.
Como resultado dessas tensões, um grupo de 133 moradores de Lamu acionou o Supremo Tribunal do Quênia na tentativa de paralisar as obras. Atividades como escavação e construção na área disputada estão restritas até a próxima audiência judicial, marcada para 14 de outubro.
Visão de Desenvolvimento para a África
O lançamento da refinaria de petróleo contou com a presença de líderes de Uganda, Etiópia, Togo e Benin, sinalizando o apoio regional ao projeto. Segundo a agência de notícias Reuters, Dangote ofereceu aos governos regionais uma participação combinada de 30% na refinaria.
Em seu discurso, Dangote enfatizou a importância da colaboração continental: “Esta é a África se unindo para construir a África. Hoje não estamos simplesmente lançando a pedra fundamental para uma refinaria, estamos lançando a pedra fundamental para um novo capítulo na jornada industrial da África em direção a um futuro mais brilhante.”
Ele traçou um paralelo com seu projeto anterior, afirmando: “Lekki [sua refinaria nigeriana] provou que pode ser feito, Lamu deve provar que pode ser repetido.”
O Presidente Ruto ecoou esse sentimento, declarando: “É uma declaração de que a África entrou em uma nova era em que financiaremos, construiremos, processaremos e agregaremos valor cada vez mais aqui em casa.”
A refinaria de petróleo de Lamu está destinada a ser a única do tipo na África Oriental e representa o maior projeto de infraestrutura do Quênia desde a independência, superando a Ferrovia de Bitola Padrão, avaliada em US$5,1 bilhões.
No auge da construção, Dangote prevê a criação de 60.000 empregos, com benefícios que se estenderão muito além dos diretamente empregados. “Vamos trazer robôs? Claro, as pessoas se beneficiarão”, disse ele, abordando as expectativas de emprego.
Por Que o Quênia, Sem Petróleo?
A decisão de construir a refinaria no Quênia, um país que não é produtor de petróleo, levantou questionamentos entre críticos. Alguns sugeriram que a Tanzânia ou Uganda, que estão avançando em direção às exportações de petróleo através do Oleoduto de Petróleo Bruto da África Oriental, seriam locais mais lógicos.
No entanto, o Ministro de Energia e Petróleo do Quênia, Opiyo Wandayi, explicou à BBC que a localização da refinaria não significa que ela dependerá exclusivamente do petróleo da região. “Refinarias obtêm petróleo bruto do mercado. E o mercado está aberto”, afirmou.
Dangote reforçou esse ponto, citando Singapura como um exemplo notável. “Singapura não produz uma única gota de petróleo, mas tem muitas refinarias”, explicou, destacando que a logística de mercado é mais relevante do que a produção local.
Infraestrutura e o Futuro Energético
Além da refinaria de petróleo, o complexo de Lamu incluirá uma usina de energia de 1.000 megawatts. Dangote considera a eletricidade confiável uma restrição crítica para a industrialização em toda a África, especialmente em países ricos em minerais que ainda exportam matérias-primas em vez de processá-las localmente.
O bilionário tem cerca de US$50 bilhões em projetos em andamento, incluindo planos para desenvolver 10.000 megawatts de capacidade de geração de energia em toda a África até 2030, com potencial para dobrar essa capacidade dependendo da demanda.
Em Lamu, a nova usina de energia foi projetada para apoiar não apenas as operações da Dangote, mas também outras indústrias que se espera que se instalem na área. “A energia está lá e o que você faz é o que chamamos de ‘plug and play’”, comentou Dangote.
O Quênia enfrenta preços de combustível relativamente altos, o que gera a expectativa de que uma maior capacidade de refino possa, eventualmente, ajudar a reduzir os preços nas bombas. No entanto, o preço do petróleo bruto, matéria-prima principal para o combustível, definido pelos mercados internacionais, continua sendo um fator crucial no custo final para os consumidores.
A refinaria de petróleo de Lamu representa o maior investimento proposto por Dangote fora da Nigéria, replicando o sucesso de sua refinaria nigeriana, que também possui uma capacidade de processamento de 700.000 barris por dia. Dangote planeja dobrar essa capacidade após uma recente oferta de ações que visou arrecadar até US$2,1 bilhões.

Deixe um comentário