Avanço econômico no Tibete, com infraestrutura moderna e turismo em alta, reflete a profunda influência chinesa, que redefine a vida local e a identidade cultural milenar.
O Tibete, antes uma região isolada e de economia rural, passa por uma das mais drásticas transformações de sua história. Décadas de investimentos significativos por parte da China remodelaram completamente sua paisagem e a vida de seus habitantes.
Rodovias modernas, ferrovias eficientes e aeroportos amplos substituíram trilhas íngremes, conectando a região ao restante da China e ao mundo. Essa modernização, no entanto, traz consigo um complexo conjunto de desafios culturais e sociais para o povo tibetano.
O desenvolvimento econômico é inegável, mas o preço dessa integração levanta questões profundas sobre a preservação da língua, da demografia e da própria essência da identidade tibetana, conforme informações divulgadas pelo UOL.
A Revolução da Infraestrutura e o Boom Econômico
A China transformou o Tibete em uma região com estradas modernas, ferrovias, aeroportos e até sinal de 5G no acampamento-base do Monte Everest. Esta nova infraestrutura reduziu viagens que antes duravam dias para apenas algumas horas, abrindo as portas para o consumo global.
A Região Autônoma de Xizang, nome oficial do Tibete, apresenta hoje um crescimento econômico acima da média chinesa, com cidades que prosperaram, avenidas arborizadas e ruas bem cuidadas. Uma reportagem do UOL, após uma semana de viagem pela região, destacou a ausência de miséria.
A tibetana Tsewang Dolma, de 31 anos, exemplifica essa mudança. Ela passeava com a filha e o marido em um dos shoppings Wanda Plaza, na capital Lhasa, inaugurado em 2021. Para ela, a grande transformação começou há cerca de dez anos, com a chegada da ferrovia, a primeira ligação por trens entre o Tibete e o restante da China.
Por essa ferrovia, chegam mercadorias de grandes marcas globais e chinesas, abastecendo as lojas e os hábitos de consumo locais. A filha de Tsewang, de apenas 3 anos, já alterna o chinês e o tibetano, com a mãe comentando que o mandarim dela é até melhor que o dos pais, um reflexo claro da nova realidade.
Prosperidade com Endereço e Dependência
A prosperidade no Tibete tem um endereço, sendo parte de uma política de integração nacional. Cidades e províncias chinesas mais ricas associaram-se a áreas menos desenvolvidas para financiar infraestrutura e serviços. Pequim e Jiangsu, por exemplo, cuidam de Lhasa, enquanto Xangai e Shandong apoiam Shigatse.
Xiaohuang, uma tutora de crianças da etnia Han, vinda de Sichuan, mudou-se para Lhasa há mais de uma década e atribui a melhora das escolas à assistência de outras regiões. O jornalista e pesquisador da Universidade de Harvard, Wang Xiangwei, afirma que essas políticas no Tibete são mais bem-sucedidas do que em Xinjiang Uigur, contribuindo para a estabilização da região.
A dependência de Pequim é histórica e mensurável. Há 25 anos, Lou Jiwei, então vice-ministro das Finanças, já reconhecia o grande apoio direto do governo central ao Tibete. Em 2025, as transferências do governo central representaram 64% dos recursos do orçamento regional.
Apesar de a dívida ter aumentado para 149 bilhões de yuans (R$ 114 bilhões) no fim de 2025, ela permanece abaixo do limite estabelecido pelo governo central e é a menor entre as províncias e regiões autônomas chinesas em valores absolutos, segundo a China Bond Rating. Wang Huiyao, presidente do CCG, destaca que o Tibete se tornou um exemplo de desenvolvimento, com população satisfeita e crescente abertura para estrangeiros.
O Preço da Integração: Cultura e Identidade sob Pressão
A integração econômica no Tibete não veio sem um preço. A mudança demográfica é notável, com a participação tibetana na população total caindo de 90% para 86%. Uma das maiores preocupações de pesquisadores é o impacto sobre a língua tibetana.
Allen Carlson, cientista político da Universidade Cornell, enfatiza que a preservação do tibetano exige que ele seja mais do que uma disciplina escolar, pois é um atributo central da identidade cultural e das práticas religiosas. Se a língua desaparecer, uma parte importante dessa identidade também se perderá.
Em julho, a Lei de Unidade Étnica marcou um controle decisivo de Pequim. Essa legislação estabelece diretrizes para forjar uma identidade nacional, alinhando sistematicamente todas as minorias, incluindo os tibetanos, à cultura majoritária da etnia Han, intensificando os debates sobre a preservação da cultura regional.
A integração física continua com novas ferrovias em construção, como a que ligará Lhasa a Chengdu e outra entre Lhasa e Hotan. A ampliação da rodovia G219 também facilitará o acesso a áreas remotas, como a “Terra de Ninguém” de Ngari e as ruínas do antigo Reino de Guge.
Nesse cenário, aproxima-se uma das maiores disputas simbólicas: quem terá autoridade para reconhecer o 15º Dalai Lama? O atual Dalai Lama afirmou que sua instituição, o Gaden Phodrang Trust, na Índia, será responsável por reconhecer sua reencarnação, enquanto Pequim sustenta que a sucessão deve seguir as regras chinesas e ser aprovada pelo governo central.
Turismo como Motor e Vitrine da Nova Realidade
A infraestrutura moderna ajudou a transformar o turismo em uma das principais atividades econômicas do Tibete. Com uma população de cerca de 3,7 milhões, a região recebe um número exponencial de visitantes.
O número de turistas dobrou entre 2015 e 2019, atingindo 40 milhões, e continuou a crescer após a pandemia, chegando a 70 milhões em 2025. O turismo doméstico explodiu, e a reabertura de passagens de fronteira com a Índia, como o passo de Nathu La, facilita um fluxo contínuo de viajantes ao longo do ano.
Além do turismo, o UOL visitou empresas de atividades antes pouco desenvolvidas na região, como vinícolas e a produção de mel. O crescimento regional é expressivo, com o PIB do Tibete crescendo acima da média nacional há pelo menos três décadas, mantendo uma taxa de cerca de 7% no pós-pandemia.
Para críticos da política chinesa, no entanto, a integração econômica é indissociável das mudanças culturais e do controle político. O Jokhang, um centro de peregrinação budista, e o Palácio Potala, associado aos Dalai Lamas, funcionam agora também como museus, com regras rígidas e filas de turistas.
Um monge que retornou a Lhasa após duas décadas observou que “tudo” mudou, com a viagem de um mês se tornando uma de quatro ou cinco dias. Ele notou que o Potala havia sido reformado e parecia “mais limpo e moderno”. A imagem que resume essa transformação é a de templos onde a tradição tibetana ainda é reverenciada, enquanto nos espaços públicos ao redor, as imagens dos líderes chineses ocupam lugar de destaque. Esse choque entre identidade, cultura e desenvolvimento permanece aberto, e o futuro do Tibete ainda está por ser definido.

Deixe um comentário