O Festival de Veneza foi palco de uma revelação que repercute globalmente, o documentário “Naza”. A produção israelense mergulha em uma discussão profunda e controversa, sugerindo a aplicação da tese da “banalidade do mal” de Hannah Arendt à realidade atual das operações militares, com foco nas mortes de civis em Gaza.
O filme “Naza” traz à tona um cenário onde funcionários do Estado de Israel estariam, de forma rotineira e à distância, executando atos de poder destrutivo contra a população palestina. A premissa é que um processo semelhante ao descrito por Arendt nos anos 1940 pode estar ocorrendo hoje, impactando diretamente as vidas em Gaza.
Com entrevistas detalhadas, o longa documenta como a busca por alvos terroristas estaria resultando em um alarmante número de mortes de civis em Gaza. As informações foram divulgadas pelos próprios diretores do filme, Yuval Abraham e Rachel Szor, e confirmadas pela publicação britânica The Guardian, uma das produtoras do documentário.
A “Banalidade do Mal” Contemporânea em Gaza
O documentário “Naza” propõe uma reflexão perturbadora sobre a “banalidade do mal”, conceito da filósofa Hannah Arendt. O filme sugere que um processo semelhante ao extermínio nazista nos anos 1940 ocorre hoje no aparato estatal de Israel, com atos de poder destrutivo contra o povo palestino de Gaza, resultando em mais mortes de civis em Gaza.
Yuval Abraham, um dos diretores de “Naza”, explica que a tese de Arendt pode ser aplicada a muitos sistemas de extermínio, genocídios ou crimes de guerra. Ele destaca que indivíduos inseridos em uma sociedade que normaliza o sistema podem viver nele sem perceber a gravidade de suas ações, contribuindo para a trágica realidade das mortes de civis em Gaza.
O Sistema de “Dano Colateral” e a IA na Mira
O filme “Naza” causou enorme repercussão ao detalhar, a partir de entrevistas com 24 membros das Forças de Defesa de Israel, como suas ações contra o grupo terrorista Hamas resultam em um concomitante extermínio de civis palestinos. Depoentes revelam que um único ataque pode matar centenas de inocentes, mesmo quando o alvo é apenas um membro do Hamas, elevando o número de mortes de civis em Gaza.
O termo “naza”, ou “dano colateral”, é usado para se referir a esses casos, onde a morte de civis já é esperada e até quantificada. Essa terminologia chocante, revelada pelo documentário “Naza”, sugere uma aceitação prévia da perda de vidas inocentes, transformando-a em uma métrica operacional.
Além disso, o documentário aponta que cidadãos comuns são confundidos com terroristas por um reconhecimento de inteligência artificial que detecta padrões de comportamento. Quem age de forma similar ao padrão pode ser lido como um terrorista e acabar morto, vitimando frequentemente familiares e vizinhos dos alvos, contribuindo para as mortes de civis em Gaza. Segundo o filme, a morte de palestinos inocentes tem sido sistêmica desde o início dos ataques a Gaza em 2023.
Os Depoimentos Internos e a Verificação Rigorosa
Para proteger a identidade dos entrevistados, o filme “Naza” apresenta os depoentes com o rosto e a voz alterados por inteligência artificial. Os cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor garantem que a identidade de cada um foi verificada com “um milhão por cento de certeza” após intensa investigação, evidenciando o rigor na produção deste filme sobre as mortes de civis em Gaza.
Rachel Szor afirma que cada relato no filme é confirmado por múltiplas fontes, assegurando que nada foi incluído com base em apenas uma pessoa. A especificidade e o detalhe da linguagem usada pelos depoentes tornam impossível que tudo seja inventado. A produção conta ainda com o apoio do The Guardian, que verificou a integridade das informações apresentadas no filme “Naza”.
As Consequências e a Coragem dos Cineastas
A motivação dos israelenses que decidiram falar no documentário “Naza” é complexa. Embora o peso na consciência pareça a hipótese mais plausível, Yuval Abraham detectou comportamentos menos óbvios. Ele observou casos em que, após um depoimento inicial de vergonha ou culpa, o tom mudava, revelando um senso de orgulho pelo que haviam feito, uma nuance intrigante no contexto das mortes de civis em Gaza.
Os cineastas, que conversaram com a reportagem em Veneza, foram recebidos calorosamente. No entanto, dias depois, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, anunciou planos para revogar a cidadania de israelenses que “difamem as forças de defesa de Israel”, uma clara ameaça a profissionais como Abraham e Szor, que buscam expor a realidade das mortes de civis em Gaza.
Apesar dos riscos, os diretores de “Naza” seguem firmes. Abraham, já acostumado a enfrentar represálias por trabalhos anteriores, como “Sem Chão”, vencedor do Oscar sobre a destruição de um povoado palestino, ressalta um certo privilégio. Ele afirma que, se fossem palestinos, teriam sido assassinados ou presos, o que os deixa menos preocupados, mas não menos vigilantes, diante da situação e da necessidade de expor as mortes de civis em Gaza.

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