A inesperada declaração do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, acendeu um pavio diplomático entre Kiev e Seul. O líder ucraniano revelou a transferência de dois prisioneiros de guerra norte-coreanos para a Coreia do Sul, uma informação que, segundo Seul, deveria ter permanecido em sigilo.

Essa revelação irritou profundamente o governo sul-coreano, que rapidamente convocou o embaixador da Ucrânia em Seul para protestar formalmente. A Coreia do Sul exige um pedido de desculpas e acusa a Ucrânia de violar um acordo de confidencialidade previamente estabelecido entre os dois países.

Este incidente marca uma inesperada crise diplomática entre Ucrânia e Coreia do Sul, colocando em xeque a confiança entre as nações e levantando questões sobre os bastidores da cooperação internacional, conforme apurado pelas informações disponibilizadas.

O Estopim da Crise Diplomática

O epicentro dessa crise diplomática reside no palco global da ONU, onde o presidente Zelensky fez a polêmica declaração. Ele afirmou que a Ucrânia havia transferido dois soldados norte-coreanos capturados para a Coreia do Sul, destacando que “não foi fácil capturá-los vivos”.

Zelensky ainda mencionou um dos soldados, que “ao perceber que seria feito prisioneiro, tentou se matar e ficou chocado quando o destino não permitiu que morresse”, exemplificando a mentalidade inculcada na Coreia do Norte. Especialistas sugerem que a divulgação visava realçar os riscos do envolvimento norte-coreano na guerra.

Horas depois, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, acusou a Ucrânia de violar um acordo de confidencialidade. Ele expressou sua decepção, afirmando, “Não sei por que o lado ucraniano rompeu o acordo e tornou o caso público, mas isso é muito decepcionante”.

Em resposta, Dmytro Lytvyn, assessor de Zelensky, argumentou que a Ucrânia é um “país aberto” e que manter a entrega dos soldados em segredo seria estranho. Ele declarou que a Ucrânia apenas “relatou o fato em si, que eles foram enviados para a República da Coreia”.

Quem são os soldados e por que a Coreia do Sul os quer?

Os dois militares norte-coreanos foram capturados pelas forças ucranianas recentemente, enquanto integravam o contingente enviado pela Coreia do Norte para combater ao lado das tropas russas na guerra contra a Ucrânia. A presença desses soldados ressalta o apoio de Pyongyang a Moscou.

Ainda em território ucraniano, os prisioneiros manifestaram em entrevistas à imprensa o desejo de se estabelecer na Coreia do Sul. Eles chegaram a enviar uma carta a uma organização não governamental de Seul, expressando a vontade de ter uma “vida normal” no país.

Um deles, recrutado aos 17 anos, serviu em uma unidade de reconhecimento, conforme relatou à imprensa sul-coreana. Seul havia solicitado à Ucrânia que não os devolvesse à Coreia do Norte, onde poderiam enfrentar perseguição e graves riscos à vida.

A Coreia do Sul, por sua Constituição, considera a Coreia do Norte parte de seu território e, portanto, todos os coreanos, incluindo os do Norte, são cidadãos sul-coreanos. O país tem uma política de acolhimento e apoio financeiro a desertores.

O parlamentar da oposição, Yu Yong-weon, que se encontrou com os soldados na Ucrânia, enfatizou o valor estratégico desses indivíduos. Ele afirmou que ambos poderiam fornecer informações cruciais sobre treinamento militar, capacidades bélicas e a participação do regime de Pyongyang no conflito.

O Acordo de Confidencialidade Contestato

No centro da crise diplomática está a controvérsia sobre a existência de um acordo de confidencialidade. O presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, acusou a Ucrânia de violá-lo, enquanto Kiev negou veementemente sua existência.

Na versão de Seul, havia um claro entendimento entre os dois países para manter a questão em sigilo. O governo sul-coreano protestou contra a “declaração falsa” do gabinete presidencial ucraniano ao negar o acordo.

Seul classificou a negação como “um ato que prejudica seriamente a confiança entre os dois governos e causa danos significativos às relações amistosas entre os dois países”. Por isso, exige formalmente “uma explicação e um pedido oficial de desculpas”, avaliando “medidas adicionais”.

O acordo teria sido estabelecido devido a preocupações com a segurança dos soldados norte-coreanos e de seus familiares no Norte. Já a Ucrânia temia críticas internas por abrir mão da possibilidade de trocá-los por soldados ucranianos mantidos pela Rússia, segundo informações.

Implicações Diplomáticas e o Contexto da Guerra

A Coreia do Sul, apesar de ser uma crescente exportadora de armamentos, tem se limitado a fornecer ajuda humanitária e aderir às sanções econômicas contra a Rússia desde a invasão de 2022. Seul resiste aos apelos de Kiev e da OTAN por apoio militar direto.

O presidente Lee Jae-myung anunciou um pacote de apoio de US$ 100 milhões para a Ucrânia em uma cúpula da OTAN em julho, mas reiterou que armas letais continuariam excluídas. No entanto, o governo tem analisado pedidos por armamentos defensivos, especialmente após o envio de tropas norte-coreanas para a Rússia.

Do ponto de vista jurídico, a Terceira Convenção de Genebra estipula que prisioneiros de guerra devem ser libertados após o fim das hostilidades, mas não impede transferências antecipadas para terceiros países. A base legal exata da transferência não foi divulgada.

Peter Ward, pesquisador do Instituto Sejong, argumenta que a repatriação não deve ocorrer se prejudicar o bem-estar ou os direitos humanos dos prisioneiros. Ele afirma que há base legal para transferir prisioneiros de guerra para um terceiro país de sua escolha, se este estiver disposto a recebê-los.

A professora Lee Shin-wha, especialista em direitos humanos, aponta que a transferência pode gerar atritos jurídicos, pois o direito internacional trata a Coreia do Norte como Estado separado, enquanto Seul considera os norte-coreanos seus cidadãos.

O princípio de non-refoulement, que proíbe o envio de pessoas para um país onde enfrentem risco de tortura ou perseguição, pesa contra a devolução dos soldados à Coreia do Norte. O líder Kim Jong-un já elogiou soldados que cometeram suicídio em combate contra ucranianos.

A crise diplomática também se insere em um contexto de preocupação de Seul com uma reação hostil da Coreia do Norte, o que poderia prejudicar os esforços para retomar a diplomacia entre Pyongyang e Washington.

O presidente Lee Jae-myung tem adotado uma abordagem discreta para evitar antagonizar Pyongyang, que usa seus soldados enviados ao exterior para propaganda heroica. A Coreia do Norte e a Rússia confirmaram ter combatido juntas na região de Kursk, com Seul estimando o envio de 15 mil soldados norte-coreanos.

A cooperação ampliada com a Rússia tem ajudado Kim Jong-un a resistir à pressão dos EUA e a acelerar seu programa de armas nucleares, complicando ainda mais o cenário diplomático regional.


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