A política brasileira é um campo fértil para alianças inesperadas, especialmente quando se trata de eleições estaduais e a disputa pela presidência. O cenário atual, marcado por forte polarização, intensificou um fenômeno já conhecido: a desconexão entre os palanques regionais e as candidaturas ao Palácio do Planalto.
Nesse contexto, o pragmatismo do Centrão e de outras legendas atinge seu ápice, com um olho na governabilidade local e outro na formação de bancadas e fundos partidários. O objetivo é maximizar votos e garantir a sobrevivência política, independentemente das cores ideológicas.
Exemplos como os movimentos “LuQuel” em Pernambuco e “BolsoPaes” no Rio de Janeiro revelam essa dinâmica complexa, onde candidatos a governador buscam apoio em espectros políticos distintos. Conforme informações divulgadas na fonte, pelo menos 20 estados apresentam nomes que não acompanham os presidenciáveis de seus partidos ou coligações.
O Fenômeno da Desconexão Partidária e o Pragmatismo do PSD
A falta de alinhamento entre palanques regionais e candidaturas presidenciais é um fenômeno conhecido, mas que ganhou nova força com a polarização. O cientista político Fábio Vasconcellos, da Uerj, explica que “o centrão e a direita operam para maximizar votos, e localmente não há uma relação linear do voto a governador com o de presidente: o eleitor pode escolher uma força para o estado e fazer uma leitura de país diferente”.
O PSD se destaca como um dos casos mais evidentes dessa desconexão, com sua lógica partidária sendo testada. Embora tenha lançado a chapa Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab para o Palácio do Planalto, muitos de seus candidatos a governador com chances reais de vitória fazem outras alianças, priorizando o poder local.
Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e figura que simboliza o pragmatismo, considera “natural” que seus correligionários busquem apoios diversos. Em 2022, após o partido não conseguir lançar um nome próprio, parte de seus membros foi liberada para seguir com Lula, o que reflete a busca por competitividade, como no caso de Eduardo Paes.
Estratégias Regionais: De Pernambuco ao Rio, com “LuQuel” e “BolsoPaes”
Em Pernambuco, a candidata Raquel Lyra (PSD) ilustra perfeitamente a flexibilidade eleitoral. Ela afirma não trabalhar para Caiado, Lula ou Flávio Bolsonaro, mas se beneficia do apoio de todos. O movimento “LuQuel“, especialmente no interior, associa a candidata a Lula, que tem João Campos (PSB) como seu palanque oficial no estado.
O candidato ao Senado Tulio Gadelha (PSD) faz abertamente a dobradinha “LuQuel“, enquanto Lyra se define como “pernambuquista” ao ser questionada sobre suas preferências presidenciais. Críticos, como um político do Republicanos, veem a estratégia como oportunismo, acusando-a de “surfar no bolsonarismo” na Região Metropolitana para conquistar a classe média.
No Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD) exemplifica o “BolsoPaes“. Oficialmente alinhado com Lula e coligado com o PT no estado, ele atraiu clãs do centrão e nomes antes ligados ao bolsonarismo, como a família Reis de Duque de Caxias. Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito Washington Reis, é a vice na chapa, embora se mantenham discretos na corrida presidencial.
Os irmãos de Jane, Rosenverg e Gutemberg Reis, candidatos a deputado estadual e federal pelo MDB, distribuem santinhos com Flávio Bolsonaro e Paes. A ausência de Lula nos panfletos de Paes é justificada pela impossibilidade de usar verbas do fundo eleitoral para materiais conjuntos com o presidente, já que o PSD tem candidato próprio à presidência.
Batalhas Judiciais e Ambiguidade no Nordeste: A Complexidade da “LuNeto” e “CiroNaro”
A fluidez das alianças regionais também gera conflitos na Justiça Eleitoral, desafiando a lógica partidária. Na Bahia, a campanha de ACM Neto (União Brasil) enfrenta questionamentos dos petistas por manifestações do tipo “LuNeto“. Vídeos de influenciadores e jingles ligando o candidato a Lula viraram alvo de ações judiciais, com o PT baiano, liderado por Éden Valadares, acusando a chapa de “anti-Lula”.
A estratégia, que inclui posts como “Eu tô com Netinho, eu tô com vovô Lula”, busca atrair eleitores de Lula, maioria entre os baianos, mesmo com ACM Neto declarando apoio a Caiado e tendo o PL na coligação. A tentativa de “esconder” o carlismo é notável, visando maximizar votos em um dos maiores eleitorados de Lula no Brasil.
No Ceará, Ciro Gomes (PSDB), que optou pela neutralidade, é coligado com o PL, tendo Alcides Fernandes (PL) em sua chapa majoritária. Ele atrai a direita no embate com Elmano de Freitas (PT), mas cerca de 30% de seu eleitorado é de esquerda, de acordo com a Quaest. Seu irmão, Ivo Gomes, faz campanha com o slogan “Lula lá Ciro cá”, enquanto o PT tenta associá-lo a Bolsonaro com a peça “CiroNaro”, que resultou em perda de tempo de propaganda para Elmano.
O “Estado Pêndulo” de Minas Gerais e a Flexibilidade de Cleitinho
Minas Gerais é considerado o “estado pêndulo” desta eleição, e a estratégia de Cleitinho (Republicanos) para governador é um exemplo claro de como a lógica partidária se adapta localmente. Identificando-se como de direita e declarando voto em Flávio Bolsonaro, ele trabalha publicamente para atrair eleitores de Lula, após conquistar grande parte dos bolsonaristas.
Sem amarras no plano nacional por sua legenda, Cleitinho conta com o apoio escancarado da prefeita do PT de Frei Gaspar, Jackeliny Nascimento. Ela divulga propaganda com fotos de Cleitinho e Lula juntos, gerando rebuliço entre petistas. O senador não perde a oportunidade de propagar essa parceria, com discursos anti-polarização e abraços em eleitores de Lula.
Essa atuação calculada divide os lulistas: ela pode ser benéfica ao presidente se Cleitinho não fizer campanha para Flávio, mas é uma dor de cabeça para Patrus Ananias (PT), que busca um palanque forte para Lula. Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest, aponta que “do eleitorado de Minas, 6% são Cleitinho e Lula”, e Pedro Rousseff (PT-MG) alerta para o impacto em uma eleição presidencial apertada.
A flexibilidade de Cleitinho se assemelha à de Eduardo Paes no Rio, que também busca fugir da radicalização. Mayra Goulart, da UFRJ, conclui que, embora “lideranças importantes podem se afastar da polarização nacional, mas ela continua muito forte e determinante”, o foco no poder local muitas vezes supera as divisões ideológicas, redefinindo as alianças e a lógica partidária em todo o Brasil.

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