O despejo de Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos que morava há sete décadas em um apartamento no cobiçado bairro do Retiro, em Madri, chocou a Espanha e reverberou internacionalmente, tornando-se um símbolo da grave crise imobiliária que assola o país.

No centro desta controvérsia está a Urbagestion Desarrollo e Inversión SL, uma empresa cujo modelo de negócios, focado na valorização de imóveis por meio da desocupação e reforma, levanta questões sobre o direito à moradia e a especulação imobiliária.

Este artigo explora as operações da Urbagestion, seu papel no mercado imobiliário espanhol e como sua atuação se alinha com as tendências que intensificam o problema dos despejos, conforme informações detalhadas obtidas pela agência BBC Mundo.

O Caso de Maricarmen: Símbolo da Crise Habitacional

Maricarmen Abascal, que pagava seu aluguel mensalmente, foi despejada de sua casa na rua Alcalde Sainz de Baranda, número 46, após anos de disputa judicial. Sua idade avançada e deficiência a transformaram em uma figura emblemática do drama dos despejos na Espanha, que, segundo o Conselho Geral do Poder Judicial, registrou mais de 25 mil desocupações anualmente.

A situação habitacional espanhola é grave, com preços de aluguéis em alta exponencial devido à escassez de oferta, ao crescimento populacional nas grandes capitais e ao aumento de apartamentos destinados a aluguéis turísticos de curta duração. O bairro do Retiro, onde Maricarmen morava, é uma das áreas mais caras de Madri, o que intensifica a pressão sobre os imóveis.

A indignação com o despejo foi tão grande que chegou à ONU. O Relator Especial para o direito à habitação, Koldo Casla, solicitou a suspensão da ação e exigiu que as autoridades espanholas garantissem uma moradia alternativa adequada para Maricarmen. Casla declarou: “Não há como entender como se pode justificar priorizar a rentabilidade de um investimento imobiliário em detrimento do direito à habitação de uma mulher de 87 anos que recebe uma pensão de 1.300 euros e vive naquela casa há 70 anos”. Ele ainda lembrou que o Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CESCR) da ONU já havia emitido medidas cautelares para suspender temporariamente o despejo. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou o despejo como uma “tragédia” inaceitável.

Urbagestion: Uma Estratégia de Valorização Imobiliária

A Urbagestion Desarrollo e Inversión SL, constituída em outubro de 2005, em pleno auge da bolha imobiliária na Espanha, também opera comercialmente sob o nome de Urbagesa. A empresa se dedica a oferecer “investimentos rentáveis em imóveis de uso comercial, escritórios, industrial, logística, residencial e terrenos”, conforme sua própria descrição.

Sua principal atividade consiste em aumentar o valor dos edifícios. Para isso, a Urbagestion compra propriedades, desocupa os inquilinos e realiza reformas, visando uma posterior venda por um preço mais elevado. A empresa tem sede em Madri e uma filial em Valladolid, atuando em todo o território nacional. Apesar de sua abrangência, é classificada como uma “microempresa”, com apenas sete funcionários, segundo dados obtidos pela agência EFE na plataforma einforma.

Segundo dados da Axesor, empresa espanhola especializada em informações empresariais, a Urbagestion está ligada aos empresários Ricardo Alonso Fernández e Fernando Alonso Fuentes. A BBC Mundo tentou entrar em contato com a empresa para obter um posicionamento, mas todos os canais de comunicação pareciam congestionados, impossibilitando o contato com qualquer responsável.

A carteira de projetos da Urbagestion inclui cerca de dez edifícios residenciais à venda, a maioria deles em Madri. Entre seus imóveis, destaca-se um “atualmente vazio e para reformar” próximo à Gran Vía, uma das principais vias comerciais da capital, cujo preço supera US$ 14 milhões, de acordo com a agência EFE. Outro edifício, “em pleno centro” da capital, é oferecido com a ressalva de que possui “inquilinos”, mas que seus contratos “terminariam no ano que vem e os demais não são de longa duração”, evidenciando a estratégia de desocupação para valorização.

Em entrevista à emissora pública RTVE, gravada pouco antes de seu despejo, Maricarmen classificou a empresa como “desumana” e criticou seu desejo de “ganhar dinheiro”. O edifício onde Maricarmen vivia foi comprado em 2018 pela Renta Corporación, um dos grandes grupos imobiliários espanhóis, e posteriormente adquirido pela Urbagestion.

Contratos Antigos e a Busca por Rentabilidade

O caso de Maricarmen é um exemplo clássico da colisão entre contratos de aluguel antigos e a lógica do mercado imobiliário moderno. A idosa pagava cerca de US$ 570 de aluguel mensal, um valor muito baixo para os padrões atuais, graças a um contrato assinado por seus pais em 1956, sob o regime de aluguel antigo da ditadura franquista.

Nesse regime, os contratos tinham regras especiais que mantinham os valores baixos e permitiam a transferência dos direitos aos familiares do inquilino. Para a Urbagestion, esse valor de aluguel significava uma baixa rentabilidade do imóvel. Por isso, a empresa ofereceu a Maricarmen a opção de comprar o imóvel por cerca de US$ 290 mil, um valor inacessível para ela, que tem uma aposentadoria que não ultrapassa os US$ 1.500.

Posteriormente, a Urbagestion adquiriu o edifício e passou a cobrar de Maricarmen um aluguel de cerca de US$ 3 mil, argumentando que o contrato antigo havia expirado. A diferença abissal entre o valor que ela pagava e o valor de mercado atual foi o cerne da disputa judicial que culminou no despejo.

O Debate dos “Fundos Abutres” e o Mercado Espanhol

Em suas poucas manifestações sobre o caso, a Urbagestion tem ressaltado que é uma empresa de pequeno porte e pede para não ser equiparada aos “fundos abutres”, termo frequentemente usado para descrever grandes fundos de investimento. No entanto, especialistas apontam que a Urbagestion compartilha com eles uma lógica econômica similar: identificar ativos, comprá-los, reformá-los e vendê-los por um valor mais alto, buscando um retorno rápido.

Nas últimas duas décadas, grandes fundos de investimento, como Blackstone, Cerberus e Goldman Sachs, entraram com força no mercado espanhol, tornando-se os maiores detentores de imóveis residenciais do país. A Espanha se tornou um polo atraente para esses investidores devido a uma forte valorização imobiliária e um mercado com demanda crescente, especialmente após um período de dificuldades no acesso à moradia.

O economista Raymond Torres, do centro de análises espanhol Funcas, disse à BBC Mundo que “o mercado na Espanha se caracteriza por uma demanda muito forte, o que o torna muito atraente para investidores de outros lugares, que têm a segurança de que conseguirão vender o bem adquirido e de que os preços sobem ano após ano”. O país já registra 12 anos consecutivos de alta nos preços dos imóveis, com um aumento que se intensifica.

Especialistas concordam que o encarecimento da moradia aumenta o risco de despejo, especialmente entre os inquilinos mais vulneráveis, como Maricarmen. A ministra da Habitação da Espanha, a socialista Isabel Rodríguez, acusou a Comunidade de Madri, governada pelos conservadores, de “estender o tapete para esses especuladores” e afirmou que o governo de coalizão de esquerda tentou, sem sucesso, aprovar uma lei para proibir esse tipo de despejo. Maricarmen, após o despejo, está agora no hospital e deve morar com parentes, enquanto seu apartamento vazio ainda guarda as lembranças de uma vida inteira.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *